Costumo brincar que não é fácil exercer o puxa-saquismo diariamente com pessoas que nem sempre gostam da gente. É um tal de querer agradar a qualquer custo e, com isso, conquistar a confiança e admiração de nossos superiores para, quem sabe, ganhar alguma coisa em troca de tanta gentileza. Certa vez uma amiga minha, presidente de uma empresa de médio porte, contou-me sobre uma funcionária dela que "puxava seu saco" todos os dias sem notar o ridículo que prestava.
Margareth me contou que sua coordenadora de recursos humanos, Júlia, era uma profissional um tanto quanto diferente. Vinda de uma empresa pequena e familiar, onde tudo que ela fazia era visto como algo excepcional, Júlia, na verdade, não possuía tantos dotes como seu discurso espalhava. Era uma profissional mediana, graduada, sem línguas estrangeiras, experiência de pouco mais de cinco anos na área de atuação e, aparentemente, simplória.
Minha amiga me contou que, quando contratou Júlia, escolheu-a por um motivo curioso. Sua personalidade familiar (talvez traçada pela empresa em que trabalhou) cedeu-lhe certo grau de conforto e confiança para lhe dar o cargo de coordenadora. Nos primeiros meses, Margareth se sentia orgulhosa pela contratação. A moça criou ações motivadoras para os colaboradores, conseguiu aumentar seus benefícios sem impactar nos custos da empresa e executou processos de seleção com grande maestria.
Porém, passados aproximadamente seis meses de casa, Margareth começou a perceber que Júlia já não parecia tão eficiente quanto antes. Todas as ações que desenvolveu pareciam ter chegado a um fim e novas ações não surgiam mais. Ao invés de apresentar projetos de melhoria em sua área e de fazer as coisas pertinentes a seu escopo de trabalho, perdia muito mais tempo tentando lhe agradar.
Margareth conta que a moça ia cada vez mais a sua sala para conversar sobre projetos ínfimos, visivelmente criados sem critério algum, apenas para mostrar que algum serviço era feito. Segundo a presidente, Júlia parecia ter se tornado uma espécie de governanta da empresa, onde se preocupava muita mais em pedir que a faxineira mantivesse a mesa de Margareth (apenas a dela) limpa e organizada. Chegava a ser engraçado. Cada vez que ela viajava, quando voltava estava tudo organizado. Mas o que Júlia não sabia era que Margareth reparava que isso ocorria apenas em sua sala e não nas demais, onde a coordenadora realmente não se importava em pedir para limpar. Ao contrário, ações mais importantes eram cada vez mais deixadas de lado e os benefícios para a presidente eram sempre mais evidentes.
Porém, esperta como ela só, Margareth pregou uma peça à coordenadora. Começou a lhe pedir coisas bobas, que poderiam ser feitas por ela mesma, como ir ao restaurante comprar seu almoço, ou passar na livraria e escolher um livro para presentear um amigo. Durante alguns dias, usufruiu da "boa vontade" exacerbada da moça para tirar proveito de ações pessoais. No final de duas semanas, convocou-a para uma reunião e cobrou certos projetos que ela havia prometido há alguns meses. Como era de se esperar, Júlia não tinha dado vazão em nenhum deles.
Ao questionar a moça sobre os motivos pelo insucesso dos projetos, mais que depressa ela revidou: "estou sobrecarregada de coisas para fazer e não tive tempo de trabalhar nesses projetos". Foi a deixa que Margareth precisava e, mais do que depressa, desatou a falar: "como que você está sobrecarregada e aceita me ajudar com coisas pessoais? Meus funcionários precisam saber priorizar suas atividades e ter pulso para dizer se podem ou não assumir certos favores. Agradeço pela sua preocupação em me atender bem, mas sua principal função aqui é defender os interesses dos funcionários e da empresa".
Margareth se sente honrada em contar que Júlia se desenvolveu bastante depois desta conversa. Curiosamente, sua mesa não foi mais arrumada durante suas viagens, mas os projetos prometidos por Júlia, esses sim, foram todos colocados em prática.
O maior problema do puxa-saco é o tempo que ele dispensa para agradar desnecessariamente seus superiores. Enquanto isso poderia fazer coisas muito mais relevantes e pertinentes às atividades da empresa.
Saiba identificar os puxa-sacos que estão a sua volta e entenda porque eles agem assim, lendo a coluna Talento em Pauta, da próxima terça-feira, 07 de julho.



