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general Joaquim Silva e Luna
O general Joaquim Silva e Luna, presidente da Petrobras.| Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A gestão do general da reserva Joaquim Silva e Luna à frente da Petrobras completou 100 dias nesta terça-feira (27). Ele foi indicado ao cargo em fevereiro pelo presidente Jair Bolsonaro, que estava insatisfeito com a política de preços dos combustíveis realizada pela presidência anterior, sob comando do economista Roberto Castello Branco, indicado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

A chegada do general ao comando da petroleira marcou uma mudança significativa na composição do conselho da petroleira e de boa parte da diretoria da estatal. A transição, num primeiro momento, pegou o mercado de surpresa e gerou temores entre os stakeholders sobre possíveis interferências do Planalto na política de preços. Interlocutores também especulavam sobre como seria conduzida a agenda de desinvestimentos e investimentos sob o comando do novo presidente da estatal.

Mas já na posse Silva e Luna afirmou que buscaria reduzir a volatilidade de preços, sem desrespeitar o alinhamento com os preços internacionais dos combustíveis. Ele indicou a intenção de conciliar interesses dos consumidores e de acionistas, valorizando os trabalhadores. Afirmou ainda que sua administração focaria na redução da dívida e no investimento em pesquisa e desenvolvimento.

"Vamos buscar reduzir a volatilidade [mudanças bruscas dos preços nas refinarias, em curtos prazos], sem desrespeitar a paridade internacional [alinhamento com os preços externos]", disse o general à época, citando a principal causa dos preços mais alto nas bombas de combustível.

Agora, em um balanço dos 100 dias de gestão, analistas avaliam que a troca não tem sido satisfatória do ponto de vista da paridade de preços, como havia sido sugerido pelo presidente Jair Bolsonaro à época da indicação de Silva e Luna.

Bolsonaro ainda se vê num dilema de tentar agradar investidores, num aceno à agenda liberal, e à população, em especial aos caminhoneiros autônomos, importante base eleitoral do bolsonarismo.

Em julho, a gasolina e o diesel atingiram seu preço mais alto nos postos de combustível desde o início do ano, e os caminhoneiros já ameaçam realizar uma nova greve. A categoria critica o governo federal por não propor medidas que viabilizem a redução do preço do óleo diesel, e a Petrobras, por manter a política de preços. A gasolina, por exemplo, já subiu 27,8% e o diesel, 27,3%, em 2021.

Muitos analistas esperam pelo lançamento do novo plano estratégico da petroleira, normalmente feito na virada de novembro, quando, segundo eles, será possível ter uma noção mais clara quanto à estimativa de curva de produção, demanda e recursos que vão ser investidos no pré-sal sob a gestão de Silva e Luna. O último plano quinquenal feito pela gestão de Castello Branco, por exemplo, dava peso significativo ao setor de exploração e produção, especialmente do pré-sal.

Paridade internacional de preços e previsibilidade na gestão

Para analistas, a política de Silva e Luna, em comparação com a de Castello Branco, embora tente atenuar a volatilidade nos preços, continua seguindo os parâmetros do petróleo do mercado internacional, o que pressiona os valores dos combustíveis na bomba. Na prática, houve apenas uma ampliação do espaçamento das divulgações dos reajustes dos preços da gasolina e do diesel no país.

"Não há dúvidas de que o nível de dinamicidade da atualização na gestão Castello Branco era bem maior. Havia movimentos muito mais intensos", avalia Ilan Arbetman, analista de research da Ativa Investimentos. "E, de fato, a questão da paridade não mudou. A Petrobras segue tendo como objetivo maior estar no mesmo nível do preço internacional". Levantamento da Ativa Investimentos revela uma defasagem de 16% nos preços praticados hoje, ou seja, os combustíveis tendem a ficar ainda mais caros.

O que mudou, na perspectiva do especialista, foram os gatilhos. Isso é, antes, se praticavam os reajustes de forma mais rápida; hoje, de forma mais espaçada. Mas é difícil que a dinâmica do reajuste de preços deixe de ser volátil.

"Especialmente a Opep [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] é muito centralizadora, funciona como cartel, que visa o melhor para os seus membros. E lá tem país, por exemplo, que tem 60% do seu PIB dependente do petróleo. É muito difícil classificar qualquer mudança como efêmera ou substancial, conjuntural ou estrutural. Ou seja, preferimos aceitar que as mudanças no preço dos derivados da Petrobras serão feitos de forma mais lenta", diz o especialista da Ativa.

Essa também é a opinião, por exemplo, da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes (Fecombustíveis), que afirma que mesmo em meio à troca na gestão, "praticamente, nada mudou" com relação à condução anterior.

A própria Petrobras teria sinalizado a interlocutores que deve manter a política de preços, com alinhamento ao preço de paridade de importação (PPI), mas tentando evitar repassar a volatilidade aos preços domésticos. O Brasil não integra a Opep, mas sofre influência da política de controle da oferta praticada pela organização.

Desinvestimentos e investimentos

Ainda para muitos analistas, a gestão de Silva e Luna tem mostrado alinhamento quanto à continuidade do plano de desinvestimentos e da venda de ativos non-core (não-essenciais). Não houve, portanto, para eles, ruptura no objetivo foco de ter a estatal com uma estrutura mais enxuta e rentável.

"Quando houve a troca, havia medo de que isso fosse descontinuado de alguma forma", admite Arbetman, da Ativa Investimentos, quanto à expectativa dos investidores.

A Petrobras tem mantido um programa robusto, tanto com a desalienação do Campo Papa-Terra, por exemplo, como de águas rasas, que tem o custo de extração maior, muitas vezes acima de US$ 10 por barril. No pré-sal, hoje, sem frete e custos governamentais, o preço chega a US$ 2,50.

"Desde que assumiu, a gestão Silva e Luna foi bem clara quanto à sua visão positiva a respeito da continuidade do plano dos desinvestimentos. É normal que, especialmente no momento da troca, a pessoa que entrou tenha algum receio, e por isso houve um freeze, um momento de adequação, até para que processos fossem revisitados", avalia.

A preocupação com agenda de desinvestimentos ajuda a estatal com o seu principal objetivo, que é ter uma dívida menor, para ser capaz de distribuir riqueza, via dividendos ou de forma mais perene. "Não há dúvidas de que, hoje, o estoque de dívidas é maior, especialmente se levarmos em consideração os pares, e isso faz com que a Petrobras possa distribuir menos proventos. A indústria de petróleo é madura e tem uma demanda muito grande por dividendos e rentabilidade", diz Arbetman.

"Do tripé 'desinvestimentos, investimentos e paridade', o que mais segue trazendo dúvida é a questão de preços. Hoje, sentimos alguma dose de assimetria nessa política, e essa assimetria é uma das principais responsáveis por vermos ela sendo negociada com desconto frente aos pares. Quando projetamos para frente, e vemos um novo ciclo eleitoral, seguimos com dúvidas no radar quanto à política de preços", explica o analista da Ativa Investimentos.

Uma última expectativa dos stakeholders é com relação à condução da Petrobras frente à agenda verde, à transição energética. "É um processo que não tem volta, já começou, e precisa ser abordado da forma mais transparente possível. Esse é mais um ponto para ficarmos de olho e independente da cor do partido, sabemos que Petrobras, por ter governança exercida pelo Executivo, fica muito as vezes dependente de preferências de quem está no comando", avalia Arbetman.

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