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Apesar do Estado

R$ 6 bilhões em tributos em um ano: como Luciano Hang cresceu contra o Estado brasileiro

Luciano Hang esposa
Luciano Hang com a esposa e os três filhos na comemoração dos 40 anos da Havan (Foto: Divulgação/Havan)

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Em 2026, se fosse possível somar o tempo de casa de 300 colaboradores da Havan que completam entre 10 e 40 anos de empresa, o resultado seria 3.890 anos de trabalho acumulado. Esse é o número que Luciano Hang costuma citar para dimensionar a transformação da empresa em quatro décadas.

A rede varejista fundada por ele em 1986, numa sala de 45 metros quadrados em Brusque (SC), completou 40 anos em junho com quase 200 unidades, 22 mil colaboradores e projeção de faturamento de R$ 22 bilhões.

A trajetória da empresa até se tornar uma das maiores varejistas do país se deu com o DNA empreendedor de Hang contra um aparelho estatal hostil ao empreendedorismo e contra a alta carga tributária brasileira. Somente em 2026, a empresa deve pagar cerca de R$ 6 bilhões em tributos – cifra que ultrapassa o lucro líquido esperado.

** Esta matéria faz parte da série de reportagens Apesar do Estado, da Gazeta do Povo, que retrata a trajetória de grandes empresários brasileiros que venceram os desafios de empreender em um dos ambientes de negócios mais hostis do mundo. Confira outros textos da série neste link.

Empresário com “DNA catarinense” transformou a Havan em gigante do varejo

Filho de operários da indústria têxtil catarinense, disléxico diagnosticado tardiamente, Luciano Hang começou vendendo bolachas wafer no recreio da escola. Aos 16 anos, entrou na expedição de uma fábrica em Brusque. Passou por tecelagem familiar e fábrica de toalhas antes de se juntar, em 1986, a Vanderlei de Limas para abrir uma loja de tecidos importados.

O nome saiu da junção dos dois sobrenomes. Vanderlei deixou a sociedade cinco anos depois, e Hang ficou com a operação inteira. Em 1989, a Havan mudou para um espaço de 2,5 mil metros quadrados na rodovia Antônio Heil, ainda em Brusque. Em 1995, abriu a primeira filial em Curitiba e adotou a fachada branca inspirada na Casa Branca — Hang tinha voltado dos Estados Unidos com a ideia.

Hoje são 196 unidades em 23 estados, e a meta é encerrar dezembro em 200 megalojas, com presença em todos os 27 estados brasileiros e algo em torno de 25 mil funcionários.

"A Havan carrega o DNA catarinense em cada loja espalhada pelo Brasil. Estamos em quase todos os estados brasileiros, mas nunca deixamos a nossa essência catarinense", afirmou o empresário à Gazeta do Povo.

Luciano Hang empreendedorismoLuciano Hang em discurso no evento de comemoração dos 40 anos da Havan (Foto: Divulgação/Havan)

Burocracia como obstáculo crônico

Para o empresário, a burocracia é um dos principais obstáculos ao setor produtivo do país que acompanha a Havan desde sua fundação.

Em conversa promovida em Brusque em junho deste ano, no aniversário de 40 anos da rede, Luciano Hang contou que uma unidade da Havan levou 22 anos para reunir todos os alvarás e licenças necessários para funcionar. Casos concretos de espera pública se acumulam no interior. Em Matinhos, no litoral do Paraná, um terreno de 30 mil metros quadrados destinado a uma megaloja com cinema e praça de alimentação está parado há quatro anos.

Hang atribui o impasse ao Instituto Água e Terra (IAT) e a promotores públicos que, segundo ele, "lamentavelmente não deixam o Brasil crescer". Em Joinville, três projetos não puderam sair do papel. Em setembro de 2022, a inauguração de uma unidade em Natal foi embargada pelo Corpo de Bombeiros na véspera da abertura, e Hang atribuiu a decisão a perseguição política do governo estadual, então comandado pelo PT.

"Nosso problema maior não é comprar o terreno, não é fazer loja, é o licenciamento em algumas cidades. A burocracia é uma coisa que nos cansa", disse em entrevista à Rádio Menina.

A capital paulista, maior mercado consumidor do país, com quase 12 milhões de habitantes, segue sem uma única loja Havan. Hang atribui a ausência à burocracia municipal. No estado de São Paulo, há 36 unidades, todas fora da capital, empatando com o Paraná em número de lojas.

“Carga tributária é maior que lucro e gasto com fornecedores”

Em 2024, a Havan pagou R$ 4 bilhões em tributos. Em 2025, cerca de R$ 5 bilhões. À Gazeta do Povo, Luciano Hang afirmou que a rede recolhe hoje cerca de 30% do faturamento em tributos e que o total previsto para 2026, somando impostos e benefícios, deve ficar próximo de R$ 6 bilhões — cifra que supera o lucro líquido projetado para o ano.

"O imposto é o maior gasto. É maior do que o lucro, é maior do que os fornecedores", declarou o empresário em entrevista publicada em sua conta no Instagram no ano passado.

A reforma tributária entrou em fase adaptativa no dia 3 de agosto de 2026, quando as notas fiscais eletrônicas do regime regular passaram a ter que informar campos com alíquotas-teste de IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços).

Estudos setoriais estimam o IVA brasileiro entre 26,5% e 28%, uma das alíquotas mais altas do mundo, acima da média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), de 19%, e da União Europeia, de 21%. Para o varejo de departamentos, que opera com margem líquida entre 9% e 10%, cada ponto conta.

Em maio de 2026, o governo Lula editou a MP 1.357, zerando o Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50 feitas por pessoas físicas em plataformas estrangeiras. Hang reagiu publicamente. Argumentou que a carga tributária sobre a operação nacional pode chegar, na sua conta, a 120%, e que a isenção para o produto chinês cria uma disputa desigual com o varejista brasileiro. "Se o imposto é zero para o estrangeiro, queremos imposto zero para o brasileiro também", questionou.

Luciano Hang históriaLuciano Hang com a esposa e os três filhos na inauguração do Museu Havan, ao lado da megaloja matriz, em Brusque (SC) (Foto: Divulgação/Havan)

Havan expande enquanto outras grandes varejistas fecham lojas

O ano de 2026 encontrou o varejo brasileiro com número recorde de pedidos de recuperação judicial. A Casas Bahia negocia dívida de R$ 17,3 bilhões e encerrou 298 lojas. A Marisa fechou unidades. Renner e Riachuelo reduziram suas projeções de crescimento. Segundo Hang, o varejo brasileiro "já está na UTI e o destino é a morte" se não houver correção na assimetria tributária com produtos importados.

A Havan segue no caminho oposto. São 15 novas unidades previstas para o ano e investimento de R$ 1,2 bilhão em expansão. Um relatório do Banco Safra aponta que a rede mantém margens acima da média do setor, desempenho atribuído pelos analistas ao mix de produtos e ao modelo de megaloja.

Luciano Hang projeta crescimento no Brasil, apesar do peso do Estado

Mesmo frente à alta carga tributária, à burocracia e a demais impasses no ambiente de negócios, Luciano Hang ainda acredita que é possível ter sucesso ao empreender no Brasil. À Gazeta do Povo, ele afirmou que a próxima meta, após bater 200 unidades, é chegar a 300, com foco em cidades médias e regionais. "Já temos cerca de 20 terrenos comprados para novas unidades, e a intenção é continuar essa expansão sem parar", disse o empresário.

Nordeste e Norte, historicamente sub-representados no mapa da rede, entram como zonas prioritárias. A companhia insiste em não abrir lojas fora do Brasil, apesar de propostas para levar o modelo ao exterior.

A sucessão da empresa – familiar, de capital fechado, com dois dos três filhos já na operação –  é um dos temas que o fundador menos discute publicamente. Aos 63 anos, Luciano Hang segue viajando pelas praças que ainda faltam para "zerar o mapa".

Enquanto isso, na sala de 45 metros quadrados da avenida Primeiro de Maio, em Brusque, funciona uma nova loja Havan.

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