
Integridade e ética não são palavras que valem apenas para os ocupantes do poder ou de altos cargos empresariais: elas são necessárias no dia a dia de cada um, inclusive na relação com os colegas de trabalho, chefes e subordinados. Autores de Integrity is a Growth Market (ainda sem edição brasileira), Alan Kolp e Peter Rea estão em Curitiba para divulgar esses conceitos no workshop "Integridade. Um mercado em crescimento" mesmo título de seu livro. Eles são professores do Baldwin-Wallace College, nos Estados Unidos; Rea também é professor do curso de MBA executivo da FAE em Curitiba. No evento de hoje, eles estarão acompanhados do executivo Pierre Jean Everaert, presidente honorário do conselho deliberativo da InBev. O objetivo do evento é mostrar que os negócios podem ser feitos com ética e ressaltar a importância desse conceito na sobrevivência das empresas.
Qual a importância da integridade nos negócios?
Peter Rea Há pelo menos dois caminhos a se considerar: um diz respeito ao significado, o outro ao dinheiro. Vamos começar pelo dinheiro. Nesse caso, a tendência é pensar a ética sempre de um jeito negativo. É como se pensa quando uma empresa ou um país tenta desenvolver uma conduta ética e acaba perdendo dinheiro. Isso aconteceu duas vezes nos dez últimos anos nos Estados Unidos. Se levarmos em conta a crise financeira de 2008-2009, percebemos que não se tratou de um problema legal, em sua maior parte, mas sim ético. Foi uma crise que custou muito dinheiro a todo mundo. As bolsas despencaram nos Estados Unidos, assim como no Brasil e também na Europa. Do outro lado, temos a questão do significado. Em uma equipe ou em uma organização é preciso que as pessoas confiem umas nas outras. Você tem de ter confiança nas pessoas que trabalham com você. Que elas olhem para o seu interesse e que você faça o mesmo em relação a elas. É um modelo econômico muito bom e pode-se ganhar muito dinheiro fazendo a coisa certa. É preciso se criar uma cultura do caráter, não apenas no Brasil, mas também em todo o mundo.
Houve algum tipo de mudança na conduta ética no mercado americano após a crise financeira de 2008-2009?
Rea Em alguns casos as coisas continuaram iguais. Mas, de um modo geral, sim, as companhias passaram a se preocupar mais e esse é o lado encorajador desse panorama. Mas nós entendemos que ainda não é o suficiente. A questão agora é: como encorajar as pessoas a fazerem a coisa certa? Porque muitas das grandes empresas continuam com o mesmo modelo de gestão que usavam antes da crise. O desencorajador é que sempre temos problemas com fraudes e corrupção. E há indícios de que ainda existem problemas similares àqueles encontrados em 2007 em Wall Street. Os problemas acontecem tanto no setor privado quanto no público, então não é possível dizer que se trata de uma questão política. Há republicanos se comportando mal e democratas se comportando mal. Um dos maiores problemas na América é que consumimos demais, poupamos pouco e exportamos muito pouco. Temos de mudar esse modelo, pois ele não é bom nem para a América nem para o mundo.
Alan Kolp Na nossa opinião, você pode fazer com que uma pessoa ou uma comunidade pense de determinada maneira, mas fazer isso numa esfera nacional é muito mais difícil. No entanto, uma companhia, uma empresa, pode, sim, mudar sua cultura.
O senhor é professor de religião. Qual é a ligação entre ética e religião?
Kolp Para nós, religião é uma das maneiras de dar sentido à sua vida, mas não a única. O Cristianismo também não é a única opção. A religião é uma opção para você responder a perguntas como: o que estou fazendo aqui? Qual o sentido da vida? E a ética é a maneira como você escolhe viver sua vida. Quando se fala em ética nos negócios, por exemplo, é importante entender que quem faz negócios são as pessoas. São as pessoas que tomam as decisões e elas sempre têm a escolha de serem éticos ou não. Muitas pessoas escolhem ser éticas, mas uma pequena parcela escolhe o contrário, e no fim são esses poucos que acabam criando grandes problemas não apenas para o grupo local com quem convivem, mas para todo o país.
Os brasileiros são um povo que tem consideração pelas ações éticas?
Rea Acredito que o problema da conduta ética não seja um problema só do Brasil. Assim como no caso americano, não dá para dizer que todos os brasileiros são éticos ou antiéticos. Todos têm a chance de fazer opção sobre como vão conduzir suas vidas, mas é preciso lembrar que, do ponto de vista econômico, uma conduta antiética não é sustentável. Quando seus produtos não entregam o que prometem, quando você é injusto com os funcionários, você até pode ganhar dinheiro por algum tempo, mas não conseguirá se manter por um longo período. A corrupção é como uma taxa: todos pagam por ela. E isso compromete o crescimento econômico de todos os envolvidos.
Serviço: O workshop "Integridade. Um mercado em crescimento" ocorre hoje, das 8h30 às 12 horas, no salão Mário de Mari do Cietep (Avenida Comendador Franco, 1.341). Ingressos: R$ 150; R$ 75 para associados ADVB, alunos e ex-alunos FAE, Clube do Assinante Gazeta do Povo, associados e filiados Fiep.



