
Em tempos de crise, este pode ser o verão mais frio para o setor de turismo dos últimos anos. Como primeiro efeito, a volatilidade do dólar reduziu em média 20% a procura por pacotes turísticos internacionais, justamente no período em que as vendas costumam aumentar em até 40%. O gerente de vendas da CVC Curitiba, Ricardo Luz, conta que antes da crise os pacotes internacionais tinham uma participação de 40% no faturamento da companhia; hoje este índice caiu para 15%.
Se por um lado o preço da passagem aérea internacional, por si só, não é um problema para quem quer viajar ela pode ser comprada antecipadamente e financiada em até 10 vezes sem juros , a preocupação cresce com a parte terrestre da viagem, que inclui gastos com alimentação e despesas de lazer no destino.
A presidente da Associação Brasileira dos Guias de Turismo (Abgtur) e proprietária da agência Ivetur, Ivete Inez Fagundes, relata que nos últimos dois meses houve uma queda de 20% na procura por pacotes internacionais. Ela torce por um desfecho ou uma trégua da crise financeira global, ao menos para o período de alta temporada, que vai até o carnaval, no fim de fevereiro. "O problema é que o momento de vendas é agora", diz.
Mesmo assim, alguns operadores seguem otimistas, acreditando em uma reacomodação do setor. "Pode haver momentaneamente uma indecisão ou recuo. Mas quem sonhou com um roteiro internacional não vai ficar em casa por uma diferença no dólar", diz acreditar o diretor da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa) e proprietário da operadora Tia Augusta, Paschoal Fortunato. "Em momentos de turbulência econômica, existe sempre uma acomodação psicológica. No primeiro momento vem o pânico, mas quem tem condições e poder aquisitivo se adapta às circunstâncias e abre mão de certos itens da parte terrestre, tornando os pacotes mais baratos", avalia.
Seleção natural
Segundo Fortunato, o setor se beneficiou nos últimos anos de um dólar barato, que tornou o turismo internacional acessível para uma nova classe. A crise, segundo ele, precipitou o fim dessa tendência. "A alta do dólar foi um golpe muito sério e que está sendo absorvido. As agências pequenas e despreparadas podem sofrer um impacto maior, mas isso é a seleção natural do mercado", afirma.
Status
Para o doutor em Turismo e professor da Faculdade de Administração da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), Hilário Angelo Pelizzer, as viagens internacionais envolvem uma questão de status que mantém a procura por destinos fora do país mesmo diante de um cenário desfavorável e turbulento. "Para quem tem dinheiro não há crise, e as operadoras vendem para quem tem dinheiro", opina Pelizzer. "Já tivemos um dólar a R$ 3,50 e mesmo assim havia procura por viagens para o exterior", completa.
Reajustes
Segundo o professor, o turismo interno pode ser uma opção para quem está mais interessado em trocar o terno e a gravata por bermuda e sandálias. Mas, segundo ele, alguns resorts, spas e cruzeiros aproveitaram esse possível aumento da demanda por viagens domésticas e reajustaram suas tabelas, com valores de diárias muito mais altos, o que pode tornar tais opções inviáveis. "Poderemos ver se repetir o fenômeno da virada do milênio réveillon de 1999 para 2000 , quando o setor cobrou preços impraticáveis e amargou taxas de ocupação irrisórias", avalia.
Pelizzer acredita que as operadoras darão início a promoções para "desencalhar" pacotes internacionais não vendidos até agora, fixando preços com o dólar por volta de R$ 1,90. "Quem investiu muito talvez não atinja a demanda necessária para cobrir o que foi empenhado. Assim, a escolha será entre perder tudo e levar um prejuízo menor. Quem deixar para comprar na última hora corre o risco de levar vantagem encontrando pacotes com preços mais baratos", acredita.



