A volta das ofertas públicas iniciais (lançamentos) de ações mostra que o Brasil enfrentou bem a crise global, mas não é de se esperar um novo boom no mercado de capitais como o visto em anos recentes, avaliou a presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Maria Helena Santana.
"Em 2007 estava-se atendendo a uma demanda resultante de um grau enorme de alavancagem no mundo todo, de uma disponibilidade de recursos que eu duvido que a gente vai voltar a ver," argumentou, em entrevista à Reuters.
"Acho que é razoável que não se espere de novo aquele ritmo e aquela receptividade a operações de todo tipo, de empresas ainda pré-operacionais, por exemplo. Também acho que vai ter, certamente, mais dificuldade para colocação de operações de porte médio."
Maria Helena acrescentou, no entanto, que é preciso levar em conta a rapidez com que a retomada do mercado está se dando. "Crises anteriores não terminaram de forma tão suave para nós. Em outros momentos nós tivemos efeitos que duraram por décadas e que afetaram a credibilidade do próprio mercado, dos produtos e dos emissores."
Em 2007, cerca de R$ 52,3 bilhões em ofertas públicas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês) foram registrados no país. Neste ano, a cifra não chega a R$ 9 bilhões, de acordo com informações no site da CVM.
Maria Helena avaliou ainda que os problemas enfrentados pelo mercado brasileiro neste ano foram pontuais e potencializados pela crise internacional. Ainda assim, é preciso tirar "lições" de episódios como as perdas com derivativos cambiais em algumas companhias brasileiras.
Desafios da Selic menor
Outro foco de atenção da CVM é a indústria de fundos de investimentos. A autarquia já vem trabalhando há alguns meses em propostas para dar mais transparência ao setor, num momento em que o juro básico tende a levar gestores a correr mais risco em busca de rentabilidade, e espera colocá-las em audiência pública no início de 2010.
"Temos uma preocupação de que a queda da Selic traga mais risco para a carteira dos investidores, o que vai testar os mecanismos de transparência dos produtos de investimentos e as práticas de venda dos intermediários," disse Maria Helena.
"Para oferecer produtos de mais rentabilidade, (a indústria) vai ter que correr mais risco. e precisamos ver se será verificada a adequação desses produtos ao perfil e à necessidade dos clientes."
Entre as ideias que serão propostas está a certificação de mais pessoas com papel importante na venda de fundos de investimentos e reforços nos processos de compliance. Antes disso, outras regulamentações devem sair do forno.
A CVM pretende divulgar em novembro a instrução que trata das emissões de títulos mobiliários no país. E em até duas semanas, o órgão regulador deve divulgar sua posição sobre o formulário de referência para as empresas sobe a polêmica proposta para divulgação da remuneração de executivos.
"Vamos colocar o formulário de referência para uma rodada final, apenas para ver se qualquer modificação que a gente tenha feito acende uma luz vermelha. A instrução em si, que teve menos controvérsia, a gente edita mais para o final do ano," afirmou.
"O objetivo é aproximar o grau de transparência que as empresas precisam deixar sempre à disposição dos investidores daqueles que elas preparam para colocar no prospecto no momento em que vão captar recursos. Vamos exigir que divulguem também as políticas que norteiam a remuneração dos administradores e a política de gestão de risco."



