Publicidade
Indústria

Com tarifas e atritos de Lula, Brasil importa mais calçados do que exporta pela primeira vez

Indústria de calçados Lula
Tarifas impostas pelos EUA e atritos de Lula com Trump agravam a situação da indústria calçadista brasileira, que registrou déficit comercial inédito em julho. (Foto: EFE/Andre Borges)

Ouça este conteúdo

Pela primeira vez desde 1997, a indústria calçadista brasileira exportou, em julho, menos do que importou em calçados. As importações superaram as exportações em US$ 3,6 milhões, de acordo com a Secretaria do Comércio Exterior (Secex), em um movimento provocado pelo avanço dos produtos asiáticos e pela queda dos embarques para mercados importantes, como Estados Unidos e Argentina.

O saldo acumulado em 12 meses ainda é positivo, mas caiu para US$ 276,3 milhões, o menor da série histórica. O avanço das importações já preocupa o setor: a Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados) estima que a concorrência estrangeira impediu a criação de quase 8 mil postos de trabalho diretos no primeiro semestre de 2026.

Na prática, segundo o Ministério do Trabalho, a indústria calçadista criou apenas 1,1 mil postos com carteira assinada no período, 86,9% menos do que no mesmo período de 2025.

"A indústria brasileira enfrenta simultaneamente um mercado interno pressionado, perda de receita externa e aumento da concorrência importada em detrimento do calçado brasileiro, muitas vezes sob práticas de comércio consideradas desleais pela Organização Mundial de Comércio (OMC)", afirma o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira.

Tarifaço dos EUA agravou a queda das exportações

A condução do governo Lula na relação com os Estados Unidos contribuiu para agravar o problema. A escalada das tensões entre Brasília e Washington dificultou as negociações para reduzir o impacto do tarifaço, e os calçados brasileiros ficaram fora da lista de exceções. Com sobretaxas que chegaram a 37,5%, o setor passou a enfrentar uma barreira ainda maior justamente em seu principal mercado externo, agravando a queda das exportações.

Nos Estados Unidos, principal destino e responsável por 20% das receitas externas do setor, as vendas em divisas caíram de US$ 135,1 milhões nos sete primeiros meses de 2025 para US$ 101,5 milhões no mesmo período de 2026 — retração de 24,9% no acumulado, conforme dados da Secex.

Na Argentina, segundo destino em relevância (10% do faturamento fora do país), o recuo foi ainda maior. A relação cada vez mais deteriorada entre os governos de Lula e Javier Milei também ocorre em meio ao enfraquecimento do comércio com o país vizinho, segundo principal mercado externo dos calçados brasileiros. As exportações para o país despencaram 60,3% no primeiro semestre.

O cenário internacional agravou-se com a decisão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) de aplicar uma tarifa adicional de 25% de acordo com a Seção 301, em vigor desde 22 de julho. Em 23 de julho, o USTR anunciou mais 12,5% alegando investigações sobre trabalho forçado, totalizando 37,5% de sobretaxa. "A decisão piorou o que já estava ruim", diz Ferreira.

Comércio de calçados em Curitiba, em meio ao déficit na balança comercial de calçados que ameaça empregos no setorComércio de calçados em Curitiba: importações de sapatos asiáticos estão em alta (Foto: Lineu Filho /Tribuna do Paraná / Arquivo)

Asiáticos respondem por 80% dos pares importados

Internamente, a indústria de calçados cobra linhas de crédito emergencial, regulamentação do Plano Brasil Soberano 3, elevação da alíquota do Reintegra de 0,1% para até 5% e aplicação de salvaguardas. É contra esse avanço asiático que as medidas se dirigem: no acumulado até julho de 2026, China, Vietnã e Indonésia responderam por mais de 80% dos pares importados pelo Brasil.

A China liderou em volume, com 10 milhões de pares, alta de 26,8% nos embarques e 13% na receita. O Vietnã exportou 8,3 milhões de pares e a Indonésia, 4,8 milhões.

Crise chega à produção e aos principais polos calçadistas

Segundo o IBGE, a produção da indústria de couros e seus artefatos, artigos de viagem e calçados encolheu 4,1% nos 12 meses encerrados em junho, na comparação com o período anterior. O indicador não registra resultado positivo desde julho de 2025.

Os efeitos já aparecem nos principais polos produtores. O Rio Grande do Sul, maior exportador nacional em valor, viu as vendas externas caírem 13,2% no primeiro semestre, para US$ 201,83 milhões. A retração reflete a exposição ao mercado norte-americano.

O Ceará, líder em volume, acumulou queda de 28% na receita de exportação e fechou 1,78 mil vagas no semestre. São Paulo registrou recuo de 18,5% nas vendas.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.