
Diante de um impasse entre democratas e republicanos, a necessidade de um aumento no teto da dívida norte-americana tornou-se o assunto mais comentado pela imprensa internacional na última semana. O medo de que a maior economia do mundo não consiga custear seus gastos gerou uma onda de especulações de que o país pudesse declarar o calote nos juros dos títulos públicos. Prova de que até mesmo o mercado reage com cautela a esse prognóstico foi o valor dos títulos com vencimento em dez anos comercializados na sexta-feira, quando atingiram o menor preço do ano, num sinal de confiança dos investidores nesses papeis.
Para economistas, o aumento do teto da dívida é uma questão relativamente fácil de ser resolvida numa canetada em comum acordo entre os partidos perto do verdadeiro desafio à frente dos americanos: a necessidade de reconduzir o orçamento do país para um caminho sustentável. A boa notícia é que essa reestruturação das contas públicas não precisa ser feita da noite para o dia ao contrário do aumento do limite da dívida e há tempo para uma mudança que cause o menor dano possível à economia.
Os economistas alertam que o problema começará a se agravar de fato perto do fim desta década, quando o perfil demográfico da população do país passará por uma transformação. Os "baby boomers", nascidos no pós-guerra, entre 1946 e 1964, deixarão de vez o mercado de trabalho para se tornarem aposentados, gerando um aumento de gastos com a previdência e a saúde pública, e onerando mais fortemente os mais jovens.
Um relatório preparado pelo Escritório de Orçamento do Congresso (CBO, na sigla em inglês) mostra que, diante desse cenário, os EUA terão de mudar pelo menos uma das três políticas utilizadas nos últimos 40 anos: 1) aumentar as receitas significativamente acima da média em relação ao PIB; 2) fazer grandes mudanças nos tipos de benefícios oferecidos aos mais velhos; e 3) reduzir substancialmente o papel do resto do governo federal na sociedade isto é, com defesa (o maior gasto hoje), seguro social, transporte, pesquisa, educação e treinamentos.
Com as escolhas na mesa, a luta volta para o campo político. Nesse caso, o impasse atual sobre o aumento do teto da dívida serve como uma amostra de uma luta ideológica muito maior que se passa no país. Democratas e republicanos não conseguem concordar sobre as estratégias para reduzir o déficit. Aumentam-se os impostos e, assim, as receitas, ou cortam-se os gastos e reduzem-se os benefícios do Estado para a população? Ainda que provavelmente ambas as medidas sejam necessárias, o grande desacordo está na dimensão em que elas devem ocorrer e em quais áreas cortar custos com quais programas e aumentar os impostos para quem?
Um segundo problema é que os EUA vivem hoje um momento de lenta recuperação econômica, e o Estado é parte importante da demanda. Para alguns economistas, um plano de austeridade agora jogaria o país novamente numa recessão. Há quem defenda, por exemplo, que a reestruturação do déficit comece só em 2013, quando a economia estará mais forte para a saída do governo de cena.
O economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, ex-ministro da Administração de FHC e professor da Fundação Getulio Vargas, se diz preocupado com a falta de consenso entre os parlamentares, governo e sociedade privada. "Nos anos 1970 e mesmo nas décadas seguintes, os Estados Unidos eram o exemplo de democracia e de consenso de desenvolvimento. Não fazia diferença para a economia quem seria o presidente porque, apesar dos conflitos, todos sabiam o caminho que o país tinha de seguir. Hoje o presidente faz diferença e muito. Isso é uma pena." Para ele, política e economia andam juntas, e a falta de consenso ameaça o futuro dos Estados Unidos e, consequentemente, do mundo, já que o país continua sendo a grande potência.




