
Ouça este conteúdo
A eleição presidencial de 2026 marca a consolidação do liberalismo econômico como idioma comum da direita brasileira. Em maior ou menor grau, os principais presidenciáveis do campo conservador passaram a defender responsabilidade fiscal, ambiente pró-mercado, redução da intervenção estatal e maior protagonismo da iniciativa privada. O consenso, porém, termina aí.
Embora os programas ainda estejam em formulação (veja adiante), as diretrizes já antecipadas revelam visões distintas de país. Enquanto alguns defendem privatizações amplas e Estado mínimo, outros preservam espaço para estatais estratégicas, política industrial, nacionalismo econômico e planejamento estatal em setores considerados sensíveis.
Mais do que um consenso ideológico, o liberalismo virou uma linguagem eleitoral comum na direita brasileira. A divergência já não está entre ser ou não pró-mercado, mas sobre até onde o Estado deve recuar.
O movimento marca uma guinada em relação à tradição histórica da direita brasileira, por décadas mais associada ao desenvolvimentismo estatal, ao nacionalismo econômico e à defesa de setores específicos da economia do que propriamente ao ideário liberal clássico.
A partir das manifestações de 2013, da crise fiscal que culminou na recessão de 2014-2016, da Operação Lava Jato e da ascensão do antipetismo, a defesa do livre mercado passou a ocupar espaço crescente no discurso político.
Nesse processo, think tanks liberais, movimentos de rua, influenciadores digitais e economistas ligados ao mercado financeiro ajudaram a popularizar conceitos antes restritos a círculos acadêmicos ou empresariais, como privatizações, teto de gastos, liberdade econômica e redução da intervenção estatal.
A ascensão de Paulo Guedes como ministro da Economia no governo Jair Bolsonaro (PL), em 2019, representou o ponto de consolidação desse movimento ao aproximar, pela primeira vez de forma explícita, parte significativa da direita popular de uma agenda claramente pró-mercado.
VEJA TAMBÉM:
As muitas "direitas" no Brasil
A consolidação dessa agenda, no entanto, não eliminou divisões históricas. A nova direita brasileira abriga correntes distintas — e muitas vezes contraditórias — sobre o papel do Estado, a política industrial, os subsídios públicos, as estatais e a própria relação entre mercado e poder político.
“São muitas direitas brasileiras. É difícil falar de uma direita só”, afirma Rodrigo Marinho, diretor-executivo do Instituto Livre Mercado. “Existe uma direita mais estatista, que acredita no papel do Estado, e existe uma direita liberal, que acredita na diminuição do papel do Estado.”
Segundo Marinho, apesar da crescente incorporação do discurso pró-mercado, ainda persistem setores conservadores mais ligados a uma visão nacional-desenvolvimentista e estatizante, especialmente influenciados pela presença militar no bolsonarismo.
“A inserção militar, em especial no governo Bolsonaro, teve muita pressão para esse papel mais estatizante, de ver o Estado como caminho, de defender estatais estratégicas. Isso vem muito de uma visão militar”, diz.
Essa direita nacionalista saiu muito desgastada do processo eleitoral de 2022. O caminho tem sido um alinhamento entre a visão conservadora e a visão liberal, caminhando para um Estado menor. “Mas ainda há resquícios de uma direita estatizante, e isso acaba atrapalhando uma visão pró-mercado que a direita deveria defender de maneira geral”, diz Marinho.
Agenda liberal passou a ser "vantajosa"
A tentativa de consolidar esse campo liberal também vem sendo articulada por organizações da sociedade civil e institutos de formação política. Marcelo Farias, presidente do Instituto Liberal de São Paulo (ILISP), diz que a ideia é transformar o apoio ao livre mercado em um ativo político eleitoralmente relevante — independentemente da convicção ideológica pessoal dos candidatos.
O instituto prepara um seminário com presidenciáveis e pretende lançar uma plataforma pública para medir o comprometimento dos candidatos com pautas de liberdade econômica e reformas.
Farias costuma citar uma máxima do economista Milton Friedman segundo a qual mudanças liberais duradouras dependem menos da conversão individual dos políticos e mais da capacidade de tornar determinadas ideias politicamente inevitáveis diante da opinião pública.
“O caminho é dar visibilidade a essas pautas e fazer com que elas se tornem uma escolha eleitoralmente vantajosa”, afirma Farias.
Ainda assim, a experiência mostra que a convicção liberal dentro da direita tende a ser mais fluida do que o discurso sugere. Mesmo governos identificados com o mercado recorreram à expansão de gastos, subsídios, políticas setoriais e instrumentos estatais quando pressionados por crises econômicas, demandas corporativas ou imperativos eleitorais.
Desta vez, porém, o expansionismo estatal e fiscal associado aos governos petistas aparece no centro das críticas dos presidenciáveis da direita. Confira o que os candidatos já disseram sobre as diretrizes econômicas de seus governos.
Flávio Bolsonaro: liberalismo pragmático e ajuste fiscal sem ruptura
O senador Flávio Bolsonaro tenta herdar o espaço econômico ocupado por Paulo Guedes no bolsonarismo. Seu discurso tem sido mais pragmático e menos ideológico do que o do Partido Novo ou o do Movimento Brasil Livre.
Flávio vem se reunindo com economistas ligados ao governo Jair Bolsonaro, entre eles o ex-ministro de Minas e Energia Adolfo Sachsida. À Gazeta do Povo, Sachsida negou integrar formalmente a equipe da campanha. As linhas gerais do “Projeto Brasil” foram apresentadas em uma reunião com empresários e investidores em São Paulo, no último dia 20.
A proposta de Flávio busca combinar austeridade fiscal, redução do Estado e defesa do mercado sem romper completamente com o pragmatismo distributivista que marcou o governo Bolsonaro. É um liberalismo mais eleitoral e menos doutrinário.
- Nova âncora fiscal baseada na dívida pública
A equipe econômica ligada a Flávio quer substituir as atuais metas fiscais por um mecanismo baseado na trajetória da dívida pública em relação ao PIB. A avaliação é que o modelo atual perdeu credibilidade e permite excessivas flexibilizações políticas. - Privatizações e concessões
O plano prevê ampliar privatizações e concessões para reduzir custos, aumentar investimentos privados e melhorar a eficiência operacional em setores hoje controlados pelo Estado. - Revisão de subsídios e “economia de favores”
A proposta inclui auditoria de benefícios fiscais e subsídios considerados privilégios para grupos empresariais específicos. O discurso mira o que a equipe chama de “capitalismo de compadrio”. - Desregulamentação e destravamento de investimentos
O projeto defende acelerar licenciamentos e reduzir entraves regulatórios, especialmente em mineração, infraestrutura e exploração da margem equatorial. - Digitalização da máquina pública
A equipe aposta na digitalização administrativa para reduzir custos, burocracia e espaços para corrupção. - Programas sociais com ajuste fiscal
O discurso procura conciliar responsabilidade fiscal e preservação de programas sociais. Sachsida argumenta que inflação e desequilíbrio fiscal penalizam justamente os mais pobres. - Mudanças na Previdência e nos gastos obrigatórios
Entre as medidas em estudo estão desvincular reajustes previdenciários do salário mínimo e substituir indexações atuais de saúde e educação por correções apenas inflacionárias.
Romeu Zema: o programa mais liberal e privatista da direita
Romeu Zema representa hoje a vertente mais claramente liberal da disputa presidencial. Filiado ao Partido Novo, Zema defende uma reorganização profunda do Estado brasileiro baseada em corte de gastos, privatizações amplas e redução estrutural da presença estatal na economia.
Seu discurso é fortemente fiscalista e inspirado em modelos liberais clássicos. Diferentemente do bolsonarismo, Zema propõe mudanças mais permanentes e automáticas nas regras fiscais e previdenciárias.
- Reforma previdenciária permanente
Zema defende ampliar a reforma da Previdência para incluir militares, estados, municípios e trabalhadores rurais. O plano prevê ainda ajuste automático da idade mínima conforme o aumento da expectativa de vida. - Desengessamento do orçamento
O governador quer reduzir indexações automáticas e flexibilizar despesas obrigatórias, incluindo revisão de mecanismos que hoje comprimem o orçamento federal. - Reforma administrativa ampla
A proposta inclui redução do número de ministérios, corte de cargos comissionados e revisão de autarquias e fundações públicas. - Privatização total de estatais
Ao contrário de outros candidatos da direita, Zema defende privatizações amplas, inclusive de empresas consideradas estratégicas por setores nacionalistas. - PPPs em saúde e educação
O plano prevê expansão de parcerias público-privadas para serviços públicos, incluindo áreas tradicionalmente mais sensíveis politicamente. - Venda de imóveis e ativos públicos
A equipe propõe mapear e vender ativos considerados ociosos ou subutilizados para financiar investimentos e reduzir despesas. - Metas obrigatórias de redução de impostos
A lógica proposta inverte o modelo atual: em vez de o gasto determinar o tamanho da carga tributária, metas de corte de impostos obrigariam o governo a reduzir despesas. - Revisão de programas sociais
Zema defende unificar benefícios sociais, endurecer a fiscalização do CadÚnico e focar programas em emancipação econômica e redução de fraudes.
Ronaldo Caiado: austeridade fiscal com Estado forte em setores estratégicos
Ronaldo Caiado tenta ocupar um espaço mais pragmático dentro da direita. Seu discurso combina responsabilidade fiscal, autoridade administrativa e fortalecimento do setor produtivo, especialmente ligado ao agronegócio e à infraestrutura.
Diferentemente de Zema, Caiado não adota um discurso radical de Estado mínimo. Sua visão econômica preserva espaço relevante para coordenação estatal, investimentos estratégicos e planejamento em áreas consideradas essenciais.
Seu plano vem sendo coordenado pelo ex-ministro Roberto Brant, ligado ao PSD, numa tentativa de construir uma plataforma econômica mais técnica e menos ideológica.
- Combate ao endividamento público
Caiado trata a dívida pública como principal ameaça econômica do país e afirma que pretende aplicar nacionalmente o modelo de ajuste fiscal implementado em Goiás. - Equilíbrio fiscal como eixo central
O governador associa estabilidade econômica à reorganização administrativa, previsibilidade institucional e controle permanente das contas públicas. - Crítica ao “populismo econômico”
O discurso critica a expansão de gastos sem lastro fiscal e o que chama de “desordem institucional” na condução econômica. - Infraestrutura e logística
O plano prevê investimentos em infraestrutura como mecanismo para aumentar a competitividade, especialmente no agronegócio e nas exportações. - Terras raras e tecnologia
Caiado defende avançar na exploração de minerais estratégicos e ampliar investimentos em inteligência artificial e tecnologia industrial. - Programas sociais voltados à emancipação
A proposta social busca transformar benefícios em mecanismos de inserção produtiva e independência econômica gradual.
Renan Santos: choque liberal com nacionalismo tecnológico
Renan Santos apresenta talvez a proposta economicamente mais heterodoxa entre os presidenciáveis da direita. Cofundador do MBL e filiado ao partido Missão, Renan mistura liberalismo fiscal, flexibilização econômica e um forte componente de nacionalismo tecnológico e industrial.
Sua plataforma se inspira parcialmente no ajuste radical de Javier Milei, mas incorpora elementos pouco comuns no liberalismo clássico, como a defesa da Petrobras e uma política industrial voltada à soberania tecnológica.
- Reforma fiscal “colossal”
Renan propõe um amplo pacote de corte de gastos e reorganização do Estado para reduzir juros e impostos. - “Pacote ônibus” inspirado em Milei
A ideia é enviar, logo no início do mandato, um grande pacote de reformas estruturais concentradas em uma única ofensiva legislativa. - Autonomia do Banco Central
O candidato defende a manutenção da autonomia formal da autoridade monetária. - Flexibilização da CLT
Renan critica a rigidez trabalhista e propõe modelos mais flexíveis de contratação inspirados em países nórdicos, com múltiplos vínculos e jornadas variáveis. - Lei de Responsabilidade Gerencial
A proposta prevê premiar administrações municipais eficientes por meio de metas, desempenho e meritocracia. - Reindustrialização tecnológica
O plano defende criar cadeias nacionais de processamento de terras raras, semicondutores, equipamentos médicos e tecnologia militar. - Nordeste como polo energético e tecnológico
Renan propõe transformar o Nordeste em centro de energia renovável e nuclear para atrair data centers e indústrias de alta tecnologia. - Contra a privatização da Petrobras
Renan considera a Petrobras estratégica em uma disputa global por recursos naturais. Argumenta que a privatização poderia transferir o controle da empresa para governos estrangeiros, como China ou Arábia Saudita. - Privatização dos Correios
Embora preserve a Petrobras, o candidato defende privatizações em outros setores, como os Correios. - Bolsa Família com exigência de trabalho
O plano prevê filtros mais rígidos no programa social e criação de “frentes de trabalho”. Beneficiários aptos que recusassem ofertas de trabalho perderiam o auxílio. - Alinhamento geopolítico com o Ocidente
Renan defende aproximação estratégica com Estados Unidos, União Europeia e Japão para inserir o Brasil na cadeia global de alta tecnologia e competir com o avanço chinês.




