
Reza a lenda que o grande salto evolutivo da nossa espécie ocorreu quando um homem das cavernas aceitou trocar sua borduna (arma para caça) por três conchas do mar do seu vizinho. Essas mesmas conchinhas teriam sido transacionadas posteriormente por um quilo de contrafilé de mamute, caçado com aquela mesma borduna, dando início ao que hoje chamamos de Ciência Econômica. De lá para cá, o sistema evoluiu e ficou complexo com a introdução do papel moeda, das commodities e das bolsas de valores globalizadas. Agora, um aplicativo desenvolvido por uma dupla de curitibanos pretende, com o uso da tecnologia, voltar à origem, criando uma rede mundial de escambo. A ideia é incentivar a troca de mercadorias sem uso de dinheiro.
A novidade, que tem o curioso nome de Dois Camelos, é um aplicativo que funciona dentro da rede social Facebook, permitindo que qualquer pessoa possa divulgar algo que possui em casa e não usa mais. O nome do aplicativo é uma referência à lenda de que no Marrocos é possível trocar dois camelos por uma bela e jovem esposa. Mas por traz da anedota e da simples troca de produtos estão conceitos como "consumo consciente" e "comércio justo", garante a arquiteta Fernanda Cunha de Athayde, idealizadora do projeto.
"A ideia surgiu há cerca de um ano, quando percebi que os brinquedos e as roupas das crianças iam acumulando, e não tinha o que fazer com eles. Inicialmente, a proposta era fazer algo exclusivo voltado para crianças, mas percebi que todos nós temos uma infinidade de coisas em casa que achamos que são velhas, que não usamos mais, mas que outras pessoas podem achar legal", conta. "Pensei então em usar o benefício das redes sociais para algo concreto e real, criando algo que estimulasse o consumo consciente através da troca", diz Fernanda.
Foi aí que a arquiteta esbarrou na limitação técnica de como criar esse sistema. Foi usando o próprio Facebook para trocar ideias e não objetos , que ela encontrou o empresário Rafael Zanoni, criador de um aplicativo chamado Migrakut, um fenômeno que em poucos dias transferiu milhares de usuários do Orkut para o Facebook. "Na hora achei a ideia interessante e topei desenvolver o sistema em troca da sociedade no projeto. O sistema em si demorou cerca de um mês para ficar pronto, desde a ideia até a publicação", conta o empresário.
Segundo ele, o aplicativo, que entrou no ar na última terça-feira, conseguiu 500 usuários logo no primeiro dia. "Foi realmente uma surpresa. Já estamos com mais de mil usuários, espalhados por todos os estados brasileiros e em alguns em países como Irlanda, Austrália, Estados Unidos e Canadá", conta Fernanda. O próximo passo, garantem os empresários, será disponibilizar uma versão em inglês do programa, a ser finalizada nos próximos dias. "O objetivo é criar uma grande rede de troca mundial", revela Fernanda, que explica que o sistema também deve se viabilizar como modelo de negócios através de parcerias com lojas ou empresas que quiserem se cadastrar como "ponto de trocas".
Troco minha sogra
Em menos de uma semana no ar o Dois Camelos recebeu centenas de cadastros de produtos. Dentre os itens mais curiosos estão uma cuba para lavabo, um sistema de vidro elétrico para o Ford Escort , um piruliteiro de isopor no formato da Minnie, um sofá em frangalhos, uma porta branca, um bandolim e uma sogra essa, claro, uma brincadeira de um usuário.
O agente ambiental e designer moveleiro Davi Marcel de Souza Pereira Fontes aderiu ao sistema e cadastrou itens como barraca de acampamento, um cadeirinha de bebê para carro, um aparelho inalador e a sua própria mão de obra. "Essa política do comércio justo não é algo novo para mim e politicamente tenho uma inclinação para esse tipo de troca sem a necessidade do dinheiro. Posso, por exemplo, oferecer minha mão de obra em projetos de design por algo que me interesse", exemplifica.
Fontes, que também é ligado ao movimento escoteiro, diz que o sistema de trocas favorece o atributo da colaboração. "A troca é justa e todos saem ganhando. As duas partes saem satisfeitas. Essa é a principal vantagem e não depende exclusivamente da questão da economia ou monetária", finaliza.



