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Análise

Economia vive boa fase, mas ainda é frágil

Especialistas alertam que país precisa de reformas para deixar de ser tão dependente do cenário internacional

Apesar das boas notícias que a economia brasileira vem colecionando nos últimos tempos, como taxa de juros em queda, inflação reduzida, superávits crescentes da balança comercial, vendas do comércio e ações em alta, além de promessas de tarifas menores, o país continua desperdiçando chances de ouro de acabar com problemas estruturais que impedem um crescimento mais consistente do seu PIB (Produto Interno Bruto). A advertência é de economistas entrevistados pelo Globo Online.

Um deles, o presidente da Ordem dos Economistas do Brasil, Francisco da Silva Coelho, considera que a boa fase atual do país resulta da conjugação de um cenário internacional favorável com a adoção de uma série de políticas, nos últimos anos, que trouxeram estabilidade à economia brasileira . Na segunda-feira, o presidente Lula chegou a afirmar que o país vive a melhor fase desde a proclamação da República, há 118 anos. No entanto, mesmo com a inflação e o balanço de pagamentos sob controle, outros temas relevantes ficaram pelo caminho, diz Coelho.

— Não há como negar que as medidas econômicas adotadas nos últimos anos abriram espaço para um processo de crescimento sustentado. Mas não basta reclamar agora do câmbio, porque as reservas ultrapassam US$ 130 bilhões e o dólar está a R$ 1,89, prejudicando a indústria nacional. É preciso ir mais além e colocar na pauta as reformas tributária e trabalhista, e a melhoria na distribuição de renda e no emprego. Questões como essas, vitais, continuam sendo tangenciadas — salienta.

O economista e consultor Alberto Furuguem também não duvida que o país vem 'surfando' em uma onda muito boa da economia mundial, que cresce pelo quinto ano consecutivo. Para ele, o Brasil só não estaria crescendo se uma grande loucura estivesse sendo cometida, em termos de política econômica. Mas, avisa, é preciso ter consciência de que o mundo não vai continuar 'puxando o Brasil', nesse ritmo.

— Estamos perdendo uma oportunidade excelente de fazer o dever de casa, porque quando a economia cresce, fica mais fácil resolver problemas como equilibrar orçamentos, negociar distribuição de receita tributária entre estados e viabilizar reformas como a tributária e a trabalhista. O governo não teria prejuizos, porque a arrecadação continuaria elevada, com o crescimento — explica.

Já a professora Lia Hasenclever, do Grupo de Economia de Inovação, especializado em economia industrial, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) discorda do peso do cenário externo no desempenho do país. Conforme lembrou, outras nações emergentes crescem 7% ao ano e o Brasil não acompanha esse ritmo.

— Indicadores como inflação, taxa juros ou reservas cambiais não dizem tudo sobre a economia. São sinais fracos que indicam, apenas, um ciclo positivo de negócios ocorrendo no país. Para avaliar como anda o Brasil é necessário olhar para os investimentos públicos e privados. São eles que dão sustentabilidade ao crescimento. E aí as políticas governamentais tem uma grande responsabilidade — frisa.

O economista do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), André Urani, ressalta que há motivos para comemorar o que já foi conquistado até aqui.

— Nossos êxitos, na área econômica, são fruto de um aprendizado coletivo de muitos anos. Abrimos a economia, temos acesso maior ao crédito, à infra-estrutura; a esperança de vida é maior e a mortalidade média e o analfabetimos caíram. Mas podemos fazer mais. Falta completar um ciclo de reformas que ficou pela metade — diz.

Para ilustrar a fragilidade da economia brasileira, Urani cita um exemplo figurado.

— É como um bêbado que parou de beber há 13 anos, mas que ainda não está totalmente curado. Ou seja, a eterna vigilância é necessária — frisa Urani, ex-secretário municipal de Trabalho do Rio, que aponta a questão do emprego como uma das fragilidades do momento atual do país.

— Continuamos com uma taxa de desemprego muito elevada e com uma imensa informalidade no país. Isso porque a legislação trabalhista está caduca; é a mesma na primeira metade do século passado. Já que temos um ex-sindicalista na presidência da República, essa reforma, que tanto ajudaria a classe trabalhadora, poderia ser uma das prioridades — opina.

Outro problema, ainda de acordo com André Urani, é o do marco regulatório, que precisaria ser melhor definido para permitir os investimentos de que o país precisa, sobretudo em infra-estrutura.

— No campo da telefonia celular, o marco regulatório foi excelente e adequado para promover a expansão do setor no país. Mas já se passaram 10 anos. E ele (marco) já se tornou anacrônico; precisa ser revisto — pondera.

Furuguem, ex-diretor do Banco Central, destaca, por sua vez, a importância de se focar também o câmbio, como forma de se proteger a indústria nacional.

— A queda dólar é boa para quem quer passear no exterior, mas tem um efeito perverso sobre as empresas. Se cair muito, a indústria nacional acaba. É preciso não esquecer a competitividade do produto brasileiro. Um país emergente com ambições não deixa a sua moeda se valorizar. Pelo menos, não tanto. Vejam o exemplo da China — comenta.

Muitos analistas apontam o efeito câmbio como principal responsável pela taxa de desemprego, um dos poucos indicadores que insitem em manter um desempenho ruim.

Lia Hasenclever, da UFRJ, também considera preocupante impacto cambial sobre os indicadores industriais. A professora lembra que os mais recentes indicadores industriais revelam perdas muito grandes nas regiões metropolitanas do Rio e de São Paulo — assinala. Opinião semelhante tem o presidente do BNDES, Luciano Coutinho. Segundo ele, o real valorizado desestimula investimentos no país.

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