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Por que investidores argentinos estão comprando empresas brasileiras

Empresários argentinos compram empresas brasileiras
Ajuste fiscal, estabilização cambial e juros reais negativos melhoraram significativamente condições financeiras de argentinos (Foto: Dall-E/Gazeta do Povo)

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Empresários argentinos têm aproveitado a melhora das condições financeiras no país para comprar empresas brasileiras, diante de um cenário econômico oposto enfrentado do lado de cá da fronteira, que inclui juros altos, câmbio desfavorável e ativos em dificuldade.

Trata-se de uma inversão no mundo dos negócios sul-americano. Durante décadas, eram os empresários brasileiros que cruzavam a fronteira para adquirir o controle de empresas na Argentina.

Somente no ano passado, companhias argentinas fizeram 18 operações de aquisição ou investimento no Brasil, segundo levantamento da consultoria TTR Data. O número colocou o país disparado como o principal destino do capital de empresários do país vizinho: os Estados Unidos ficaram em segundo lugar, com 11 operações, e o México, em terceiro, com oito.

Fusões e aquisições de empresas argentinas por grupos brasileiros em 2025 somaram 10 operações, ou seja, pouco mais da metade das transações no sentido inverso.

Em 2026 a tendência se mantém. Em maio, o laboratório argentino Elea concluiu a compra do controle da brasileira Cellera Farma. Em julho, a fintech argentina Cocos Capital anunciou a aquisição de ativos da Warren.

Já no setor de infraestrutura, o empresário argentino Marcelo Mindlin tornou-se protagonista da reestruturação da InterCement, uma das maiores fabricantes de cimento do Brasil.

Tendência surgiu a partir da estabilização econômica promovida por Milei

Até alguns anos atrás, o ambiente econômico argentino dificultava que empresários saíssem às compras no exterior. Inflação elevada, desvalorização do peso, controles cambiais e dificuldade de acesso ao crédito internacional tornavam muito mais difícil acumular capital em moeda forte e investi-lo fora do país.

A melhora das contas públicas, a redução da inflação e a flexibilização de diversas restrições cambiais deram aos empresários do país a capacidade de planejar e financiar investimentos de longo prazo.

O volume de negócios envolvendo empresas argentinas também cresceu em 2025. Segundo a TTR Data, foram 249 fusões e aquisições no país, uma ligeira alta de 0,4% sobre 2024. As operações envolvendo empresas brasileiras, no entanto, cresceram em patamar muito superior: 50% de um ano a outro.

“O que se observa não é exatamente uma descoberta do Brasil pelos argentinos, e sim o retorno de um capital que já esteve aqui e recuou”, diz Bruno Guimarães, planejador financeiro com certificação CFP pela Planejar.

Ele lembra que grupos como a Corporación América, que controla os aeroportos de Brasília e Natal, e a Werthein, detentor da Sky, operam no país há mais de uma década. “O que mudou foi a condição para voltar a comprar”, diz.

Juros reais negativos deixam dinheiro “barato” para argentinos

Embora a taxa básica de juros na Argentina seja muito superior à brasileira, na casa dos 29%, é inferior à inflação anual, calculada em 33,8% em julho, o que significa que o juro real no país é negativo.

No Brasil, o Banco Central (BC) estabeleceu a Selic em 14% em agosto. A inflação no nível de 4,4% faz com que os juros reais fiquem em 9,15%, o que encarece as dívidas das empresas, assim como o custo de tomar novos empréstimos para expandir suas operações.

“Dentre as consequências, se destacam a necessidade de vender operações para pagar parte das dívidas ou a recuperação judicial de empresas, que teve crescimento de 22% em relação a 2025”, diz Matheus Jaconeli, analista de investimentos da ZIIN.

Jaconeli explica que a queda dos juros na Argentina se deve ao choque fiscal realizado pelo governo Milei, que fez com que o país alcançasse um superávit nominal de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB).

“[No Brasil], sem ajustes pelo lado fiscal, o mercado continuará a cobrar juros elevados, além de reduzir a confiança externa no país, saindo dólares do país, mais um fator que faz o Banco Central manter os juros elevados contra o efeito inflacionário que pode acontecer em decorrência da desvalorização”, diz o economista.

Com isso, o crédito fica mais caro no Brasil, impactando negativamente os empresários brasileiros. “Com o cenário oposto, os argentinos enxergam oportunidades em nosso país”, explica.

Estabilização do peso dá previsibilidade a empresas argentinas

Isoladamente, o juro real negativo, no entanto, não sustentaria uma aquisição no Brasil se a moeda em que se toma o recurso perdesse rapidamente o valor contra o dólar.

O que diferencia o momento atual de ciclos anteriores da Argentina é a redução da volatilidade cambial. Enquanto o peso se mantém relativamente estável, o empresário argentino consegue projetar o custo real da operação em dólares. “É essa projeção, e não o juro nominal, que viabiliza a decisão de comprar um ativo em outro país”, afirma Guimarães.

Brasil oferece escala e diversificação aos argentinos

Além de as empresas brasileiras estarem “baratas”, ao ingressar no mercado do país vizinho, o empresário argentino tem acesso a um mercado consumidor de 213 milhões de habitantes, 4,6 vezes maior do que na Argentina.

Além disso, investir em outro país permite ao empresário argentino diversificar seus negócios e reduzir a exposição aos riscos do mercado doméstico.

O Brasil torna-se atrativo ainda por fatores como proximidade cultural, integração via Mercosul, cadeias produtivas já conectadas e conhecimento prévio do ambiente regulatório, que reduzem o custo de aprendizado.

“Um grupo que já opera aqui há anos tem uma vantagem informacional relevante sobre um comprador que chega de fora pela primeira vez”, diz Guimarães.

Família Mindlin protagoniza movimento

O movimento argentino sobre companhias brasileiras tem como um de seus símbolos a família Mindlin.

Em abril, o empresário Marcelo Mindlin, dono da Pampa Energía, um dos maiores grupos privados do setor na Argentina, liderou o consórcio Latcem para assumir o controle da InterCement, que pertencia à Mover (antiga Camargo Corrêa) e entrara em recuperação judicial com uma dívida de aproximadamente R$ 10 bilhões.

Com a aquisição, ele assumiu a presidência do conselho de administração tanto da InterCement quanto da Loma Negra, a principal cimenteira da Argentina e que era controlada pela InterCement.

Em julho, em outra importante transação, o filho de Marcelo, Nicolás Mindlin, fundador da fintech argentina Cocos Capital, também entrou em uma operação no Brasil, com a compra de ativos da Warren.

“O Brasil é um mercado-chave em nossa estratégia. É o maior mercado de capitais da região e uma oportunidade única para construir uma plataforma de escala”, disse Nicolás ao anunciar o negócio.

Aquisições vão do setor farmacêutico ao agronegócio

Em maio, outro grupo empresarial argentino fez uma aposta ainda mais direta. O Laboratorio Elea, controlado pelas famílias Sigman, Sielecki e Gold, comprou o controle da brasileira Cellera Farma.

As informações divulgadas sobre a operação apontam para a aquisição de cerca de 90% da companhia por valor estimado pelo mercado entre US$ 130 milhões e US$ 300 milhões.

Em novembro do ano passado, a Ternium, siderúrgica controlada pela ítalo-argentina Techint, assumiu o controle da mineira Usiminas após comprar por R$ 315,2 milhões cerca de 21,7% das ações que pertenciam ao grupo japonês Nippon Steel e à Mitsubishi.

Também em 2025, a argentina Biogénesis Bagó, do setor de soluções biotecnológicas para pecuária bovina e suína, adquiriu o Laboratório Mundo Animal, de Pindamonhangaba (SP), em uma transação avaliada em US$ 24 milhões.

Ainda no agronegócio, o Grupo Dom Mario (GDM), empresa argentina especializada em genética de sementes, iniciou uma ofensiva no setor com a compra da Biotrigo em 2023. Em 2024, comprou da alemã KWS as operações de melhoramento e comercialização de milho e sorgo na América do Sul, incluindo estruturas produtivas no Brasil e na Argentina.

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