Depois da fuga de dólares verificada no final de 2008, o fluxo de moeda estrangeira para o Brasil na área financeira registrou no ano passado o maior volume em quase 30 anos de estatísticas oficiais. De acordo com dados do Banco Central, a entrada de dólares no país por meio dessas operações superou a saída em US$ 18,8 bilhões.
Esse movimento inverteu, em parte, a saída de dinheiro registrada em 2008, de quase US$ 50 bilhões, por conta dos efeitos da crise global nas aplicações em bolsa de valores e renda fixa. Para 2010, as perspectivas são de mais recuperação, mas em um ritmo inferior ao de 2009.
A maior parte desses recursos entrou no país em outubro, mês em que houve a oferta de ações do Santander Brasil e várias captações por empresas brasileiras em busca de recursos no exterior. Além disso, muitos investidores se anteciparam à decisão do governo de taxar as operações estrangeiras no mercado financeiro. A cobrança de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) começou no final de outubro e ajudou a estabilizar o dólar na faixa entre R$ 1,70 e R$ 1,75.
Além das operações financeiras, o BC registra também o fluxo de dólares no comércio exterior, que teve em 2009 o pior resultado em nove anos (US$ 9,9 bilhões). Com isso, pela primeira vez desde 2000, o Brasil recebeu mais dólares pela área financeira do que pelo comércio internacional, tendência que deve se manter neste ano.
A piora nessa área se deu não só pela queda nas exportações brasileiras, mas também pelo fato de muitas empresas terem deixado parte dos dólares dessas operações fora do país cerca de US$ 7,5 bilhões.
A soma dos resultados nas áreas financeira e comercial resultou em um fluxo positivo de US$ 28,7 bilhões, o terceiro maior da série oficial, iniciada em 1982. O recorde atual é de 2007 (US$ 87,4 bilhões). Em 2008, o fluxo havia ficado negativo em quase US$ 1 bilhão.
Essa entrada de dinheiro em 2009 explica, em parte, a queda de 25% registrada na cotação do dólar no ano passado, que poderia ter sido maior, não fossem as intervenções do BC no câmbio e as apostas do próprio mercado financeiro em relação à tendência da moeda. Os bancos, que começaram o ano apostando na desvalorização do dólar, terminaram 2009 com uma expectativa de valorização em relação ao real.
As previsões já divulgadas pelo governo e pelo mercado para 2010 mostram que os números do fluxo cambial não devem se repetir neste ano. Os investimentos na bolsa e no mercado de títulos públicos, que respondem por boa parte do fluxo financeiro, devem cair quase 50%, prevê o BC. Também se projeta aumento no déficit nas transações do Brasil com o exterior, por conta da piora na balança comercial e do aumento das remessas de lucros das multinacionais.



