Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Comportamento

Eu compartilho, logo existo

Tecnologia nos dá a ilusão da companhia, sem as exigências de um relacionamento, afirma pesquisadora

A pesquisadora do MIT Sherry Turkle, em palestra em Joinville: "Não é porque crescemos com a internet que ela já está crescida" | Divulgação
A pesquisadora do MIT Sherry Turkle, em palestra em Joinville: "Não é porque crescemos com a internet que ela já está crescida" (Foto: Divulgação)

Quando lançou "Life on the Screen" (A Vida na Tela, em tradução livre), em 1995, Sherry Turkle se mostrava uma entusiasta da tecnologia. A internet, argumentava ela, permitia às pessoas criar um segundo "eu" e a explorar aspectos da identidade que dificilmente seriam testados fora do mundo virtual – experiência que, às vezes, poderia trazer benefícios à vida real. Em seu novo livro, "Alone Together" (Juntos Sozinhos, em tradução livre), lançado no começo deste ano, Sherry dá um passo atrás. A nossa relação com a web, afinal de contas, po­­de não estar caminhando para um final feliz.

A psicóloga de formação e pesquisadora do MIT esteve na semana passada em Joinville, na Expogestão, onde falou sobre as suas pesquisas e fez o alerta: é preciso repensar que tipo de experiência queremos ter com a tecnologia. Sherry se apressa em informar que não é uma 'determinista tecnológica' e não acha que as redes sociais são, por si só, más. Pelo contrário: lembra que o Facebook é uma ferramenta útil e que a tecnologia é nossa parceira na "aventura da vida", da qual ela própria tira muito proveito.

O que a preocupa é a maneira como estamos deixando o mundo virtual invadir nossa privacidade. "Vivemos num constante estado de emergência, mas ninguém se pergunta: qual é a emer­­gência?", diz ela. Ao ficarmos imersos na vida on-line, dor­­mindo com o celular no criado-mudo ou atualizando a página principal do Facebook algumas dezenas de vezes ao longo do dia, estamos desaprendendo a ficar sozinhos. A tecnologia, diz Sherry, "ataca" uma vulnerabilidade humana. "Somos so­­litários, mas temos medo da in­­timidade. A conectividade constante nos oferece a ilusão da com­­panhia sem as exigências da amizade", pontua. Como diz o subtítulo de seu livro, o resultado é que cada vez mais "esperamos mais da tecnologia e me­­nos um dos outros."

Nas suas pesquisas com jovens, Sherry descreve o fenômeno que está transformando a expectativa da nova geração em relação à tecnologia. "Antes, o processo mental funcionava assim: 'eu tenho um sentimento, eu quero fazer uma ligação'. Hoje, isso mudou para 'eu quero ter um sentimento, eu preciso mandar um SMS."

Para ela, as lições precisam partir de dentro de casa. "Os jo­­vens crescem hoje com a fantasia de que, de alguma maneira, eles nunca vão precisar ficar sozinhos." O resultado, afirma, é que se não ensinarmos às crianças as virtudes e os desafios da própria companhia, elas só aprenderão a ser solitárias. Sherry sugere "dietas tecnológicas", como considerar a cozinha de casa um lugar livre de conexão com a internet ou fazer caminhadas com os filhos sem levar o celular.

Apesar de focar seus estudos com os jovens, os problemas da relação com a internet atravessam gerações, diz a pesquisadora. No mundo corporativo, cada vez mais a resolução de problemas se dá por e-mails e blackberrys, afirma. "Não há um chefe neste mundo que responda um e-mail dizendo: 'vou pensar nu­­ma solução e te respondo de­­pois.´" Para ela, esse tipo de atitude de emergência e de respostas "para já" estimula um am­­biente de trabalho criativamente mais pobre. "De­­senvolvemos uma cultura de comunicação em que a velocidade e o volume é tão grande que passamos apenas a fazer perguntas que permitam respostas rápida. Que­­remos respostas simples, então evitamos as perguntas complexas."

O modo de vida "eu compartilho, logo existo", frase que ela repetiu várias vezes na palestra, também se reflete no "comportamento de performance" que as pessoas adotam no mundo virtual. No evento, Sherry contou a história de uma senhora que não postou no Facebook a notícia da morte de seu cachorro. Quando a questionou sobre o motivo, a mulher respondeu que "era uma notícia muito depressiva". Nas redes so­­ciais, resume ela, mostramos ape­­nas o que queremos ser, e a impressão apreendida por quem nos segue é distante da realidade humana, diz.

Tempo de mudar

"Não é porque crescemos com a internet que ela já está crescida", diz Sherry, que ressalta que a frase é a favorita dela no livro. "Toda tecnologia nos oferece a oportunidade de nos perguntar: serve ao nosso propósito de vida? Podemos tornar a internet o que queremos. É o momento de fazer a correção", afirma. "E não há lugar mais apropriado para isso do que no domínio da privacidade."

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.