
A rodada de negociações de metalúrgicos em São Paulo, que teve início esta semana, e a greve dos trabalhadores nas fábricas da Volkswagen e da Renault, em São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba, desde a última segunda-feira, chegaram no momento em que a indústria automobilística, pela primeira vez desde maio deste ano, registra queda na produção e na venda de veículos. Dados divulgados ontem pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) apontam que as vendas de carros no mercado brasileiro somaram 244,8 mil unidades em agosto, o que representa uma diminuição de 15,1% em relação a julho.
Nos quatro dias de paralisação no Paraná, mais de 6 mil veículos deixaram de ser produzidos, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC), e já se questiona até que ponto a greve pode afetar a venda nas concessionárias. Segundo o presidente da Anfavea, Jackson Schneider, as negociações salariais com os metalúrgicos em todo o país deve alcançar um ponto de equilíbrio para que não afetem o abastecimento interno nem as exportações, e que o esforço é feito com foco em um "olhar de longo prazo para garantir as condições de competitividade do setor".
O diretor da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores no Paraná (Fenabrave-PR), Luiz Antonio Sebben, acredita que a greve não deva afetar as vendas, pois montadoras e revendas trabalhariam com estoque suficiente para atender à demanda. "Pela experiência que temos com paralisações anteriores, pode haver algum reflexo apenas se a greve for muito longa", diz.
No estado, as vendas de automóveis diminuíram 12,23% em agosto e, segundo Sebben, o recuo já era esperado. "O mercado estava muito aquecido e houve uma acomodação. Este semestre deve vender menos do que o primeiro, contrariando a tendência de anos anteriores."
Novo Gol
Nas concessionárias, nenhum efeito da paralisação foi sentido, mas o executivo de vendas da Fórmula Renault, Alexander Walter, está apreensivo caso a greve dure muito tempo. "Se a paralisação chegar a 10 dias, ela pode começar a afetar a venda de alguns veículos mais procurados". Na Copava, revenda da Volkswagen, a principal preocupação é com a saída do novo Gol, que já tem filas de espera de até 45 dias. "Se a greve continuar na próxima semana, alguns modelos com opcionais podem ter um prazo de entrega ainda maior", afirma o gerente João Guilherme Castro. Assim como Sebben, da Fenabrave, o diretor comercial do Grupo Servopa, Marco Rossi, acredita que seria prematuro falar em prejuízos. "Não sentimos nenhum efeito. Acho que a greve não será duradoura. Trabalhamos tranqüilamente com o estoque até o início da segunda quinzena do mês."
Espera
A autônoma Gabriele Bertolin, que espera o seu carro novo há 36 dias, está com receio de que a paralisação dos metalúrgicos em São José dos Pinhais adie ainda mais a entrega. A promessa era que o modelo Fox, da Volkswagen, chegasse em uma semana. Gabriele acabou vendendo seu veículo antigo e desde então empresta o carro de amigos e familiares. "Para mim, o carro é uma ferramenta de trabalho, dependo muito do veículo. A concessionária disse que as entregas atrasaram por causa do lançamento do Gol. Me pediram mais duas semanas, mas agora, com a greve, nem sei mais o que vai acontecer", diz a autônoma.
Segundo dados da Anfavea, os estoques das montadoras e das concessionárias totalizaram 251.327 unidades em agosto, o equivalente a 30 dias de vendas. O númerio representa um aumento de 30% em relação a julho e é "razoável" para o tamanho da indústria brasileira na avaliação de Schneider, presidente da entidade.
Investimentos
Cerca de US$ 23 bilhões devem ser investidos no setor automotivo nos próximos quatro anos. A meta é atingir uma capacidade de produção de 6 milhões de unidades por ano até 2013. Em 2008, a estimativa é que sejam fabricados 3,425 milhões de veículos e as vendas neste ano devem registrar crescimento de 24,2% sobre 2007, totalizando 3,06 milhões de unidades.



