
Williamson, EUA - Após cerca de 90 dias de piquetes sob sol escaldante em frente ao enorme complexo onde se fabrica o suco de maçã Mott's, ao norte de Nova York, Michelle Muoio reconhece que, nessa longa greve, há muito mais em jogo do que saber se, no final, os 305 horistas que trabalham ali vão conseguir engordar seus contracheques. Os sindicatos e muitos observadores externos veem o movimento como um confronto de alto risco entre uma empresa que quer reduzir seus custos trabalhistas, mesmo batendo recordes de lucro, e trabalhadores determinados a resistir a cortes nos salários e benefícios. "É degradante, sinceramente, que queiram tirar direitos exatamente das pessoas que fazem o negócio ser rentável", disse Muoio, operadora de máquina que recebe US$ 19 por hora e trabalha na fábrica há 15 anos.
A empresa dona da marca Mott's, Dr. Pepper Snapple Group, um conglomerado do setor de bebidas, contra-argumenta que os trabalhadores do complexo recebem salários muito altos em comparação aos de seus colegas de chão de fábrica na região de Rochester (estado de Nova York), onde o desemprego para esse tipo de mão de obra é alto, depois de anos de demissões em empresas como Xerox e Kodak. Chris Barnes, um porta-voz da companhia de bebidas, diz que a Dr. Pepper Snapple buscava um corte salarial na faixa de US$ 1,50 por hora, o congelamento de pensões e outras concessões para reduzir os custos da fábrica "aos padrões locais e da indústria".
Dona de 50 marcas, incluindo SevenUp e Hawaiian Punch, a empresa reportou lucro líquido de US$ 555 milhões em 2009, após prejuízo de US$ 312 milhões no ano anterior. Em 2009, suas vendas foram de US$ 5,5 bilhões, queda de 3%. A cada semana que passa, os dois lados radicalizam mais, empreendendo todos os esforços no sentido de ludibriar e lesar o outro. Chova ou faça sol, dezenas de trabalhadores realizam piquetes em frente à fábrica diariamente, posando ao lado de um rato inflável de 4,5 metros de altura e de um caixão em que se lê "Que a ganância corporativa descanse em paz".
Simbolismo
Rebecca Givan, professora de Relações Industriais da Universidade de Cornell, diz que a greve se revestiu de um simbolismo maior. "O sindicato quer pegar carona na reação pública contra a percepção de que as empresas são gananciosas", explica ela. "Já a empresa quer mostrar que o mercado de trabalho local está em baixa", acrescenta. A greve ganhou essa importância porque as marcas são muito conhecidas, mas também por sua natureza incomum: uma empresa altamente rentável tomando a iniciativa rara e ousada de exigir concessões em grande escala. Ao contrário de batalhas anteriores, nas quais grandes indústrias americanas, tentando reduzir custos trabalhistas, ameaçavam fechar fábricas ou mudar suas sedes para o sul do país ou para o exterior, a Dr. Pepper Snapple não faz ameaças desse tipo.
As negociações estão paradas desde maio, e a companhia diz que não tem intenção de retomá-las. Continua a operar a fábrica utilizando trabalhadores a e afirma que a produção de sucos e molhos de maçã cresce a cada dia representantes do sindicato dizem que está em um terço do que era antes da greve.
Salários
A paralisação, com início em 23 de maio, foi decidida pelos trabalhadores da Mott's numa votação que terminou em 205 a 5. Estavam furiosos com a ideia da empresa de reduzir seus salários em cerca de US$ 3 mil por ano, congelar as pensões para os atuais funcionários e acabar com elas no caso de novos contratados, reduzir a contribuição patronal para aposentadorias e promover aumento no preço do plano de saúde dos empregados. A alegação era de que estaria apenas tentando colocar seus benefícios mais em consonância com o que oferece em suas outras plantas.
Mesmo antes do voto de greve, os trabalhadores já estavam insatisfeitos, dizendo que a administração tinha começado a tratá-los muito pior depois que a Cadbury Schweppes, antiga proprietária do conglomerado, desmembrou sua divisão de bebidas nos Estados Unidos em 2007, criando a Dr. Pepper Snapple. A nova gestão acabou com os bônus, com o piquenique de verão e com a festa de fim de ano para os filhos dos trabalhadores, queixaram-se vários deles.
Com o início da colheita de maçã, os produtores da região estão ansiosos por uma solução. Eles se preocupam que a fábrica, que tradicionalmente compra metade das maçãs produzidas na região, promova cortes aí também, já que a produção caiu. "Somos nós quem temos mais a perder. Temos milhões de maçãs no ponto para serem colhidas", diz John Teeple, cuja produção soma 100 mil alqueires ao ano.
Aliados
O sindicato se esforça para colocar o máximo de pressão sobre a administração. Atraiu para sua causa várias figuras proeminentes de Nova York, incluindo o senador democrata Charles E. Schumer e o procurador-geral Andrew M. Cuomo, que é candidato a governador, os quais têm instado a empresa a retomar negociações.
Tim Budd, um empregado de 24 anos que faz parte da equipe de negociação do sindicato, conta que ficou chocado com uma coisa que foi dita pelo gerente da fábrica durante uma das reuniões. "Ele disse que nós somos um ativo como soja ou petróleo, e que os preços das commodities sobem e descem", lembrou Budd. "E, ainda, que há milhares de desempregados nesta região, e qualquer um deles toparia ser contratado por US$ 14 dólares a hora. Me fez passar mal ouvir alguém do outro lado da mesa de negociações dizer que não valho o dinheiro que ganho", afirmou.
Barnes, o porta-voz da empresa, responde que o sindicato usou as palavras do gerente da fábrica fora de contexto. "Preferimos que nossos empregados voltem a trabalhar, e a porta está aberta para que façam isso. Mas estamos preparados para continuar a operar sem eles", acrescenta.
Tradução: Christian Schwartz



