
O modelo de gestão das cooperativas brasileiras está chamando a atenção do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). No fim do ano passado, a entidade criou uma comissão para acompanhar elaborar um guia de melhores práticas para o setor a ideia é que ele seja publicado no início de 2013.
Presidida pelo coordenador do Capítulo Paraná do instituto, o advogado Marcelo Bertoldi, a Comissão de Cooperativas do IBGC foi criada para auxiliar as cooperativas na adoção de políticas de organização social e também na profissionalização dos gestores.
Entre os pontos que mais chamam a atenção do instituto estão a diversidade entre os modelos e tipos de negócios adotados pelas cooperativas e pontos na legislação brasileira que dificultariam a adoção de algumas práticas de governança.
De acordo com números de 2010 da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), o país tem 6.652 cooperativas, a maioria concentrada no Sudeste, com 2.285 organizações (34,3% do total). O Sul, por sua vez, abriga algumas das maiores do país o que explica a escolha de Bertoldi para a coordenação nacional do trabalho.
Barreiras
Para isso, a entidade terá alguns desafios a superar. Entre eles, a já esperada resistência cultural de parte do setor e o entrave legislativo a ser contornado. "A Lei do Cooperativismo (5764/71) determina que as organizações sejam administradas por uma diretoria ou por um conselho de administração composto pelos cooperados. E isso gera problemas, uma vez que confunde duas competências distintas e as deixa, de certa forma, exclusiva aos cooperados", afirma.
Pelo lado da resistência cultural, o que se quer evitar é uma adoção "fraca" dos modelos indicados pelo IBGC por parte de cooperativas que têm modelos de gestão sedimentados há anos e que poderiam ver com maus olhos as propostas de um terceiro.
Bertoldi, que analisa estes cenários em conjunto com a OCB e outras instituições do setor, diz que o papel do IBGC será o de sugerir modelos e políticas para as cooperativas, que poderão levar em conta o formato de seus negócios e o que poderá ajudá-las em sua estruturação.
Modelo
Um modelo já bem avaliado por Bertoldi é semelhante ao utilizado por empresas familiares que decidem apostar em princípios de governança. Nele, o conselho de administração ficaria nas mãos dos cooperados, enquanto a diretoria executiva seria direcionada a gestores profissionais. Os conselheiros nomeariam estes executivos e acompanhariam o desempenho de suas funções.
"Esta será uma de nossas bandeiras, mas o trabalho da comissão tende a ser muito mais o de discutir o tema, levando e indicando possibilidade que poderiam fortalecer o cooperativismo", diz Bertoldi.
Ramo de crédito é mais profissional
Um dos desafios do trabalho da Comissão de Cooperativas do IBGC é definir práticas que possam atender ao maior número de cooperativas, levando em conta o porte das operações, os ramos das atividades e também os modelos de gestão que elas usam hoje.
Para o coordenador da comissão, Marcelo Bertoldi, esses pontos não são tão distantes daqueles apresentados por empresas que se submetem a valores de governança corporativa. "Em alguns casos o processo é até mais simples em uma cooperativa que em uma empresa comum de sociedade anônima (SA), já que os cooperados tendem a ter uma maior familiaridade com princípios de governança, como a isonomia e a transparência", afirma Bertoldi.
Alguns segmentos, segundo ele, estão mais receptivos aos valores da governança corporativa. Um deles é o das cooperativas de crédito: "Até por exigências do mercado e do Banco Central, essas organizações já apresentam modelos estruturados de gestão. Parte delas tem conselhos de administração profissionais e independentes, comparáveis aos das SAs. Estão, realmente, na linha de frente da governança, e até por isso seu modelo tem evoluído e seus resultados, crescido tanto", afirma Bertoldi.
Exemplo disso é o Sistema de Crédito Cooperativo, o Sicredi. A organização reúne 115 cooperativas e desde 2008 adota padrões de governança corporativa em todos os seus estágios dentro de cada cooperativa, nas centrais onde elas estão concentradas e até na holding que administra todo o sistema.



