
A descoberta de petróleo na camada pré-sal da costa brasileira completa cinco anos em novembro, mas o país continua distante de consolidar uma cadeia de fornecedores capaz de acompanhar a crescente demanda das empresas do setor, em especial a Petrobras. E tampouco há mão de obra capacitada em quantidade suficiente para dar conta do desafio.
Por isso, os dois programas anunciados ontem pelo governo federal são bem-vindos e ajudam a preencher importantes lacunas, em especial no financiamento à inovação. Mesmo assim, a indústria brasileira de equipamentos para petróleo e gás terá de superar outros obstáculos para conseguir competir de igual para igual com as empresas estrangeiras do setor. A avaliação é de especialistas que participaram ontem, em Curitiba, da mesa-redonda "Pré-sal e desenvolvimento industrial", parte do 8.º Congresso Brasileiro de Planejamento Energético.
O economista André Furtado, professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp, lembrou que, assim como a Petrobras não cumpre suas metas anuais de produção desde meados da década passada, suas fornecedoras locais também têm se mostrado incapazes de acompanhar o ritmo de investimentos da estatal. Recentemente, a Petrobras reduziu suas projeções, mas elas continuam gigantescas: pretende investir US$ 208,7 bilhões de 2012 a 2016 (quase US$ 42 bilhões por ano), sem contar US$ 27,8 bilhões em projetos ainda em avaliação.
"A política de conteúdo nacional da Petrobras tem resultados tímidos, não dá conta de capacitar seus fornecedores a dar um salto tecnológico. A tecnologia e os equipamentos mais complexos são em geral importados, ficando as empresas brasileiras com funções mais básicas", disse Furtado. Para ele, as políticas públicas de estímulo à cadeia de fornecedores seguem a direção correta, mas o setor ainda esbarra em dificuldades. "De um lado, há empresas pequenas, com deficiências e pouco pessoal qualificado. De outro, o país nunca conseguiu estruturar grandes grupos nacionais no setor. E há também as questões costumeiras da indústria nacional, como os custos elevados, que derrubam sua competitividade."
Segundo Helder Queiroz, diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a indústria de petróleo do Brasil atravessa um "momento histórico", com dois ciclos simultâneos de investimentos bilionários um na área de exploração e produção e outro na área de refino. "Não há dúvida de que, se a exploração do pré-sal for tocada de forma muito rápida, vai esbarrar em gargalos muito grandes, impedindo o espraiamento de efeitos positivos pela indústria nacional. Ela ainda precisa de capacidade e capacitação para acompanhar esses ciclos."
Pessoal
Ao apresentar um quadro com a demanda de profissionais até 2020, Heitor Gioppo, diretor da Odebrecht Óleo e Gás e da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Petróleo (Abespetro), disse que, perto do desafio de capacitar mão de obra, desenvolver tecnologia nacional será relativamente simples. "O nosso grande gargalo é pessoal. Até o fim da década o setor vai precisar de pelo menos 213 mil profissionais qualificados, de 189 categorias. Só de engenheiros são quase 9 mil. Onde vamos achar esse povo todo?", questionou.
Programa do BNDES terá R$ 3 bilhões para projetos na área
FJ, com agências
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) lançaram ontem o programa Inova Petro, que vai financiar novas tecnologias e apoiar empresas fornecedoras do pré-sal. O programa vai até 2016 e terá R$ 3 bilhões para o fomento de projetos, que serão selecionados com ajuda da Petrobras. O primeiro edital será lançado em 17 de setembro.
O governo também anunciou uma ação conjunta entre Ministério do Desenvolvimento, Agência Brasileira para o Desenvolvimento da Indústria (ABDI) e Petrobras para o desenvolvimento de arranjos produtivos locais (APLs) e a atração de fornecedores para o entorno de empreendimentos da estatal. Neste ano, o programa vai escolher nove empresas de Belo Horizonte, Salvador e Recife para o desenvolvimento de um plano de negócios. Não foi divulgado se alguma cidade paranaense será contemplada no futuro.
A presidente da Petrobras, Graça Foster, reconheceu que um dos desafios do plano de investimentos da estatal é o desenvolvimento de uma cadeia de fornecedores locais. Ela disse que, desde 2003, quando a empresa implementou um programa de exigência de conteúdo local mínimo em suas encomendas, já houve avanço, mas que é possível fazer mais.
"Muito pouco do trabalho no pré-sal é realizado pela Petrobras e por nossas empresas sócias. Há milhares de quilômetros a percorrer ainda para que a indústria de bens e serviços atenda às nossas demandas e às demandas das empresas que trabalham com a Petrobras", disse a executiva.
Segundo ela, o índice de conteúdo local nas contratações da companhia subiu de 40% a 55% em 2003 para 65% atualmente na área de exploração e produção. No refino, o porcentual subiu de 82% para 92% e, na de gás e energia, de 70% para 90%. Para alguns analistas, no entanto, esses números são superestimados.
Gigante nacional
Um dos objetivos do programa é criar uma grande empresa nacional de fornecimento de bens e serviços no setor de petróleo. O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, afirmou que o banco poderá, quando necessário, injetar capital em companhias do setor por meio de compra de participação acionária, a fim de fortalecer as firmas com projetos importantes de desenvolvimento tecnológico na cadeia de petróleo.



