
A crise na zona do euro atinge novo patamar ao contaminar os mercados da Itália. O país vinha conseguindo manter-se relativamente isolado da turbulência registrada na periferia europeia, embora já fosse considerado um alvo em caso de maior nervosismo. O sentimento dos mercados globais passou a reagir, nos últimos dias, à situação política da Itália, diante das rachaduras no governo de coalizão do primeiro-ministro Silvio Berlusconi. O principal temor refere-se à possibilidade de saída do ministro das Finanças, Giulio Tremonti.
Exatamente por considerarem a Itália mais blindada, os investidores internacionais possuem posição comprada nos ativos do país ao contrário da periferia europeia, onde a percepção geral é de posição de venda. A movimentação dos últimos dias indica que a avaliação começou a mudar. "Enquanto as preocupações sobre a Espanha existem há bastante tempo e já estão refletidas, os temores sobre a Itália são mais recentes", aponta o Barclays Capital.
A Bolsa de Milão já acumula dois pregões de quedas fortes e as ações dos bancos foram especialmente afetadas. O prêmio de risco e os títulos da dívida também sofrem pressão, movimento que atingiu pesadamente o euro que chegou a cair para abaixo de US$ 1,40 ontem. O órgão regulador italiano não demorou a agir e anunciou, ainda no domingo, que os investidores terão de revelar suas posições vendidas a descoberto quando atingirem 0,2% do capital de uma companhia. O objetivo é conter movimentos especulativos.
Cenário melhor
O quadro fiscal da Itália é considerado bem mais saudável do que os países mais problemáticos, como Grécia, Irlanda e Portugal. O déficit público caiu para 4,6% do PIB em 2010, abaixo dos 5,4% registrados no ano anterior e da média de 6% da zona do euro. Mesmo com a crise financeira global, o governo italiano conseguiu manter as contas públicas sob controle, adotando cortes de gastos para compensar as medidas de estímulo econômico. Essa dosagem foi feita pelo ministro Tremonti, que agora entrou em embate com Berlusconi. "A percepção do mercado é a de que o clima político se deteriorou", avalia Luigi Speranza, do BNP Paribas.
Berlusconi já estava envolvido numa série de escândalos pessoais quando sofreu um forte revés em abril: a prefeitura de Milão, considerada fortaleza política do governo conservador, passou para o comando da oposição de esquerda.
Em maio, a agência de classificação de risco Standard and Poors disparou alerta, ao cortar a perspectiva do rating A+ de estável para negativa, indicando a possibilidade de rebaixamento. Surgia, assim, a percepção de que o enfraquecimento do governo poderia ter efeitos negativos sobre a situação fiscal, já que a Itália enfrenta estagnação econômica.
Críticas
Nos últimos dias, passaram a pesar os rumores de que Tremonti poderia renunciar ao cargo, depois de ter sido criticado publicamente por Berlusconi. Em entrevista a um jornal, o primeiro-ministro disse que o ministro "não é um jogador da equipe". O embate acontece em meio à tramitação do novo plano de austeridade italiano, de 40 bilhões de euros, apresentado pelo governo na semana passada. A expectativa é a de que as medidas sejam aprovadas até o início de agosto, antes do recesso de verão. A agência Moodys avalia que o plano contém "medidas interessantes", mas vê "dúvidas" persistes em relação à sua implementação.
A chanceler alemã, Angela Merkel, disse ontem que a Itália precisa demonstrar que vai executar as reformas necessárias para recuperar a confiança na zona do euro. Ao ser questionada sobre a possibilidade de a Itália ser o próximo país a solicitar um resgate, depois de Grécia, Irlanda e Portugal, a chanceler disse que "tem confiança" de que o país pode cumprir com seus compromissos financeiros. Segundo Merkel, ela teria conversado por telefone com o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, no domingo, para pedir que Roma implemente rapidamente o pacote de austeridade.




