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ANÁLISE

Intervenção ampla não garante tendência de alta do dólar

BC vendeu quase US$ 1 bilhão em contratos de swap reverso nesta sexta. Objetivo da medida é segurar valorização do real

A intervenção do Banco Central no mercado futuro de câmbio marca uma nova fase na luta do governo contra a queda do dólar. A nova estratégia, porém, é tida como infrutífera por alguns economistas, que apontam que ela pode ser até contraproducente se intensificada.

O BC vendeu quase US$ 1 bilhão em contratos de swap reverso nesta sexta-feira (14), assumindo posição comprada no mercado futuro pela primeira vez desde 2009.

Na última vez em que o governo fez uso desse instrumento, o estoque de contratos disponíveis no mercado superou US$ 20 bilhões e, mesmo assim, a taxa de câmbio recuou a até R$ 1,56 - menor patamar desde a implantação do regime flutuante.

"Os trabalhos econométricos indicam que os efeitos (do swap reverso) são bastante efêmeros, duram semanas", disse à Reuters Márcio Garcia, professor do departamento de economia da PUC-Rio e Ph.D. pela Stanford University. Na opinião de alguns, pior do que um efeito de alta só no curto prazo, a intervenção por meio do swap reverso pode até induzir a uma tendência de queda do dólar ao longo do tempo.

Em um trabalho acadêmico publicado em 2009 pelo Banco Central - mas que não reflete necessariamente a opinião da instituição -, Alessandra Viola (BC), Margarida Gutierrez (UFRJ), Octávio Lion (BC) e Cláudio Barbedo (BC) afirmam que "há uma tendência de que o dólar não suba, pois a alta tenderia a anular a remuneração pela Selic".

Por enquanto, o estoque de quase US$ 1 bilhão em swap reverso oferecido ao mercado ainda é baixo em comparação com as posições em outros derivativos. Por isso, a operação não deve ter tanta influência sobre a taxa de câmbio.

Mas Sidnei Nehme, diretor-executivo da NGO Corretora, alerta que "diferentemente de quando o banco especula por conta e risco próprio, em que ele identifica um limite de queda em que ele pode perder a liquidez, quando ele está ancorado em swap ele pode ir aonde quiser, porque no fim ele tem o próprio BC dando liquidez para reverter a operação".

Nem todos os economistas, porém, concordam com essa análise. "(O swap) é pequeno para mexer em fluxo", disse José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator.

Swap complemente novo compulsório

O mercado entendeu a medida dentro do contexto de "guerra cambial", em que o governo tem batalhado para frear a queda do dólar e proteger as exportações. No início da semana, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que os investidores poderiam "esperar mais medidas no mercado futuro".

Em termos técnicos, porém, o swap reverso tem relação com a imposição na semana passada de um depósito compulsório sobre a posição vendida de bancos no mercado à vista - medida justificada como "prudencial", por reduzir o risco do sistema financeiro a uma alta abrupta do dólar.

Em entrevista coletiva após o anúncio, o diretor de Política Monetária do BC, Aldo Mendes, estimou em US$ 7 bilhões a demanda adicional que a medida criaria no mercado à vista até abril, quando o compulsório passa a vigorar.

Ao oferecer o swap reverso, o BC facilita que os bancos vendam dólares no mercado futuro e, em uma operação casada, comprem dólares no mercado à vista para cobrir suas posições para um nível abaixo do sujeito ao compulsório. "(O swap) complementa, porque ajuda de uma certa maneira a liquidez no mercado de câmbio. Quem quiser se ajustar tem mais um recurso hoje", disse Gonçalves, do Banco Fator.

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