
Entre os problemas que um casal enfrenta durante a relação, sempre há aqueles relacionados ao dinheiro. As divergências nos perfis de investidor e consumidor podem trazer conflitos no orçamento e na hora de fazer planos para a independência financeira. É o que percebe o professor do curso de Administração da FAE Centro Universitário Wagner Rodrigo Weber, que há dois anos desenvolve trabalho voluntário com casais que estão se preparando para o matrimônio. Ele ministra palestras sobre finanças pessoais durante o curso de noivos da paróquia em que participa.
"Tento mostrar que um casal sem planejamento financeiro tem grandes chances de entrar em conflito. São muitos casos de separação por causa de diferentes formas de agir com o dinheiro", explica. De acordo com uma pesquisa feita em 2008 pelo instituto norte americano Gallup, 40% dos casais recém-divorciados admitem que dinheiro foi o principal motivo de brigas, tornando a convivência insustentável.
O argumento de Weber e a conclusão da pesquisa foram endossados também pelo economista Fabiano Calil, durante sua participação na 4ª Expo Money Curitiba na semana passada. Como consultor financeiro pessoal, ele já foi contratado por centenas de casais que buscam organizar contas e planejar investimentos. Na prática, o que mais faz é mediar conflitos, como um terapeuta financeiro.
Calil resume a fórmula para um casamento feliz no que diz respeito a finanças: "Só há paz em relação a dinheiro quando as duas partes chegam a um consenso sobre o que esperam do futuro e fazem um esforço conjunto para atingir tais metas".
Ainda jovens, mas seguros de que pretendem ficar juntos por anos, o administrador Felipe Pereira, 22 anos, e a fisioterapeuta Danielle Skrepetz, 24 anos, começaram a investir no futuro antes de dizer o "sim". Por influência familiar, especialmente de Felipe, o casal juntou cerca de R$ 10 mil, acumulados ao longo de quatro anos, e comprou ações em novembro do ano passado. "O cenário era favorável para compra, mesmo com a crise. Entendemos que o agito do mercado vai passar", diz o rapaz, que sonha em daqui um ano e meio comprar um apartamento e programar o casamento.
Convencer Danielle, no entanto, não foi tarefa simples. A moça é conservadora e preferia a poupança à renda variável. O caminho encontrado por Felipe foi fazer com que a namorada aprendesse sobre o mercado de ações. "Confesso que tinha muito receio, mas agora leio mais a respeito e tenho certeza de que informação é o mais importante antes de investir", diz Danielle.
Opiniões divergentes
Diferenças de opinião devem ser resolvidas tão logo se apresentem, de acordo com Weber. "Se uma parte impõe o seu jeito de lidar com o dinheiro, a outra pode se sentir lesada. O ideal é conversar entre si e com pessoas mais experientes", aconselha. Segundo ele, muitos casais jovens são audaciosos no mercado financeiro e podem tender ao descontrole. "O importante é que o casal mantenha a cabeça nas estrelas e os pés no chão", diz.
Experiência sobra para a comerciária aposentada Eliane Oliveira, 57 anos, e o funcionário público federal aposentado Luiz Antônio Oliveira, 59 anos. E não é por conta da idade, mas pela maturidade que desenvolveram com as finanças. Dividindo o mesmo teto há 35 anos, sempre tiveram a preocupação de criar uma reserva financeira e conseguiram alinhar interesses, definir metas e agora administram "economias suficientes para viver bem até a velhice", diz Eliane, sem revelar números.
O casal afirma que para conquistar a independência financeira foi preciso, além de conversas frequentes, seguir a dica elementar entre os consultores de primeiro reservar parte dos ganhos para investir e depois pagar as contas. "Investimento tem que fazer parte da vida em família. Quando vieram os filhos (que são três, todos já casados) ensinamos isso para eles também", diz Eliane.
No início o casal era bastante conservador e investia em poupança e fundo de renda fixa. Com o tempo perceberam a necessidade de diversificar. "Decidi estudar as opções de aplicações e convenci meu marido que era hora de partir para investimentos mais rentáveis", conta Eliane. Esse papo aconteceu em 1974, ano em que adquiriram as primeiras ações da Petrobras.
Mais recentemente, há cinco anos, descobriram o Tesouro Direto e expandiram os investimentos em renda fixa. A divisão atualmente está assim: 60% na renda fixa e 40% em renda variável, no mercado de ações.
Como acontece em muitas famílias, a mulher é a broker e tem liberdade para comprar e vender. "Sei correr riscos melhor do que ele", brinca Eliane. Seguindo a máxima "em time que está ganhando não se mexe", Luiz Antônio concorda com quase tudo que a esposa faz. "Pequenas discordâncias são resolvidas com conversas, nunca brigamos por dinheiro", garante.



