Conferir a qualidade da pintura de um veículo recém-fabricado é coisa para poucos. Pequenas bolhas, riscos, pêlos e outras minúsculas imperfeições passam despercebidas por quem não é treinado para enxergá-las. Curiosamente, na fábrica de caminhões e ônibus da Volvo, em Curitiba, dois dos responsáveis por esse trabalho são cegos. Com sensibilidade naturalmente acima da média, os dois fazem uma tarefa que para a maioria das pessoas seria como tatear no escuro: buscar problemas quase invisíveis, que nem o consumidor mais exigente perceberia.
Mas a presença de deficientes visuais, físicos e auditivos nas linhas de produção das montadoras do Paraná ainda é rara. Como o trabalho é visto como arriscado, as indústrias hesitam em colocar portadores de algum tipo de deficiência entre máquinas e robôs. Mas exemplos como o da Volvo mostram que, com programas internos de conscientização e as devidas adaptações arquitetônicas, é possível contratá-los mesmo para áreas onde as exigências de segurança são maiores.
A Renault/Nissan, instalada em São José dos Pinhais, já teve um deficiente visual trabalhando na produção de motores, e hoje emprega dois surdos-mudos na linha de montagem de automóveis. Em uma experiência inédita no setor, ao menos no Paraná, a Tritec Motors, de Campo Largo, tem no quadro de funcionários seis pessoas com deficiência de aprendizagem.
O primeiro passo para receber esses funcionários é instalar rampas e elevadores e construir calçadas planas e banheiros adaptados. "A maioria dos avisos e sinalizações de emergência são sonoros. Ainda falta instalar mais avisos luminosos. De todo modo, nas comissões de fábrica já existem pessoas designadas para informar os deficientes em caso de incêndio, por exemplo", diz Patrícia Melo, coordenadora da Universidade Livre para a Eficiência Humana (Unilehu), organização não-governamental que realiza cursos de qualificação.
De maneira geral, no entanto, os deficientes têm sido contratados mais para a área administrativa. É o caso de Cristina Walter da Silva, funcionária do departamento de compra da Renault/Nissan. E, mesmo com os recentes avanços, as montadoras e a grande maioria das empresas paranaenses ainda estão distantes de cumprir o que determina a legislação sobre a inclusão de portadores de deficiência no mercado de trabalho.
A lei 8.213, aprovada em 1991 e regulamentada por um decreto de 1999, prevê cotas que variam de 2% a 5% para deficientes em empresas com mais de 100 funcionários. Por mais severa que aparente ser, a exigência está abaixo da parcela da população que tem alguma deficiência cerca de 13%.
A Renault/Nissan, por exemplo, emprega 60 deficientes no Complexo Ayrton Senna. Pela legislação deveriam ser 145, uma vez que a montadora tem 2,9 mil funcionários. Na Volvo, com 1,9 mil trabalhadores, o número de pessoas com deficiência é 48, pouco mais que a metade da exigência legal (95). "As contratações começaram de modo mais intenso somente de três anos para cá", conta Patrícia.
A Delegacia Regional do Trabalho (DRT), responsável pela fiscalização, notificou 186 empresas da região de Curitiba desde o início do ano, para que firmem termos em que se comprometem a buscar o cumprimento das cotas. "A partir das notificações, 500 pessoas com deficiência foram contratadas em 2005. Esperamos que este ano o número seja maior", diz Marilza Lima da Silva, coordenadora do Núcleo de Apoio a Programas Especiais (Nape) da DRT.
Uma grande dificuldade da fiscalização, segundo ela, é a impossibilidade de autuar empresas cuja sede não fica no Paraná. "Elas não são obrigadas a cumprir a cota em cada uma de suas filiais." É o caso da Volkswagen, que tem uma fábrica em São José dos Pinhais mas, segundo a sua assessoria de imprensa, todos os funcionários deficientes estão concentrados na sede administrativa da montadora, em São Paulo.



