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Mercado de editoras depende de nichos, mas ainda é viável

Em um país de poucos leitores e em crise, editoras independentes buscam em nichos a possibilidade de se estabelecer no setor

  • Filipe Albuquerque Especial para a Gazeta do Povo
 | Daniel Castellano /Arquivo
Daniel Castellano /Arquivo
 
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O número de leitores no Brasil cresceu entre 2011 e 2016. Segundo a edição mais recente da pesquisa Retratos da Leitura do Brasil, realizada pelo Ibope, 56% da população é de leitores. Há sete anos, eram 50%. Mas a evolução é pequena se considerada que o índice de leitura mostra que o brasileiro lê menos de cinco livros por ano – destes, menos da metade são lidos integralmente. O estudo registrou ainda que 30% da população nunca comprou um livro, e que a leitura está em décimo lugar entre as atividades preferidas, atrás de assistir tevê, ouvir música e usar redes sociais, por exemplo.

O 1.º Painel de Vendas de Livros no Brasil de 2018, feito pela Nielsen Bookscan Brasil, apontou crescimento de vendas em volume nas primeiras quatro semanas deste ano na comparação com o mesmo período de 2017: 4,19%. Já o faturamento cresceu dois dígitos: 14,05%. Reflexo do período de volta às aulas, explica nota publicada no site do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), com uma combinação de produtos com preços médios mais altos e menos promocionais. Em 2017, o mercado editorial cresceu 3,2% e reverteu uma queda de 9,2% do período anterior, segundo números do sindicato, corrigidos pela inflação.

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Mas um sinal de alerta se acende quando uma gigante do setor, como a rede de livrarias Saraiva, convoca fornecedores para renegociar prazos de pagamento. Reportagem do jornal Valor Econômico publicada no início de abril explica que parte dos seus parceiros, incluindo editoras, que deveriam receber ainda no primeiro semestre do ano, terão as datas renegociadas para o segundo semestre. Ainda segundo a reportagem, os motivos apresentados ao sindicato foram “a demora nas ações de recuperação de créditos tributários e renegociação em andamento com instituições financeiras”. Em nota, a rede informou que busca alinhar e flexibilizar as datas com seus parceiros em linha com a prática do mercado, e que esse tipo de negociação é parte do cotidiano das grandes empresas.

O expediente também foi adotado pela Livraria Cultura, que no segundo semestre de 2016 e início de 2017, também renegociou datas de pagamento com fornecedores.

Ainda segundo o jornal, a rede fechou 12 lojas ao longo do ano passado, e um plano de ação, já em prática, envolve corte de custos e fechamento de lojas para melhorar a rentabilidade, que cresceu no quarto trimestre de 2017.

O cenário pouco otimista, porém, parece não impedir o surgimento de editoras independentes espalhadas pelo país. No ano passado, a quarta edição da Feira Miolo(s), dedicada a publicadoras de menor porte, reuniu mais de 150 nomes do setor na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo.

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Ao apostar em públicos específicos, estruturas enxutas e tiragens menores para livros artesanais, algumas delas se aventuram no mercado editorial nacional com propostas que, em um primeiro olhar, parecem improváveis. Três delas, por caminhos diferentes, apostam em nichos distintos, mas que eventualmente se cruzam, para se estabelecer no radar do leitor.

Grande Área, a editora que apostou na paixão pelo futebol

Criada em novembro de 2014, a editora Grande Área nasceu da parceria de dois aficionados por futebol. Com sete títulos já publicados, foi o senso de observação dos sócios que os fez perceber que o esporte, intrinsecamente ligado à cultura popular do país, merecia páginas mais caprichadas.

“Acreditávamos que estávamos diante de um mercado específico, um nicho ainda pouco explorado, e que poderíamos obter resultados melhores que os desses títulos que pesquisamos”, explica Gabriel Roberti, um dos sócios da editora. Além da observação, que os levou a checar, por exemplo, o desempenho dos livros que gostariam de ter publicado no mercado editorial, buscaram também informações junto a livrarias e distribuidores, além de listas de vendas.

Entre os lançamentos, livros sobre os técnicos Pep Guardiola e José Mourinho, sobre táticas e as transformações no futebol alemão que culminaram com o indelével 7 a 1 em 2014. Guardiola Confidencial, que conta detalhes da passagem do treinador espanhol pelo Bayern de Munique, vendeu mais de 20 mil exemplares.

“Atualmente a editora não é o principal trabalho de nenhum de nós. Isso acontece porque somos pequenos e novos no mercado, mas também porque o nicho existente ainda não permite, pelo menos na nossa visão, uma dedicação exclusiva”, informa Roberti. Deste modo, os sócios tocam a Grande Área de forma paralela a outros trabalhos.

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Cultura pop é o nicho da editora Terreno Estranho

Criada no ano passado, a paulistana Terreno Estranho busca na cultura pop uma tentativa de se estabelecer no mercado. O pontapé inicial foi o lançamento de Jrnls80s, de Lee Ranaldo, guitarrista da banda norte-americana Sonic Youth. A obra, publicada originalmente em 1988, é um diário formado por cartas, poesias e anotações, registrado pelo músico durante os anos 80.

“A melhor pesquisa é fazer acontecer o ver o que rola, como o público vai reagir”, conta Nilson Paes, um dos sócios da editora. Ele e os outros dois sócios, Marcelo Viegas, ex-editor da Edições Ideal, e o ex-vj da MTV Fábio Massari, não se aprofundaram em pesquisa específica para o empreendimento. “No caso de uma editora pequena, não tem como ser de outra forma; eu estava realmente disposto a correr o risco. Se pensarmos na situação do país, ninguém faz mais nada. A coisa acontece se trabalharmos com dedicação e seriedade”, pondera. Assim como os fundadores da Grande Área, ele também segue gerindo a área administrativa da Terreno Estranho paralelamente ao seu trabalho.

Mas o mercado não parece muito favorável às pequenas editoras, do mesmo modo que o modelo econômico do país não tem sido simpático a micro e pequenos empreendedores. O que poderia ser uma vitrine para as casas publicadoras independentes, as grandes livrarias, pode se transformar em solo pouco fértil.

É Paes quem destaca que, do único título publicado até então pela Terreno Estranho, até 50% do preço de capa – no caso, R$ 54,90 – fica como margem para os pontos de venda. Já Roberti aponta para a concorrência pesada com as grandes editoras, que compram nas livrarias o espaço onde expor seus livros. “E assim o que resta às pequenas é esse trabalho diário, de formiguinha”, define. “Não acreditamos que seja possível, em um horizonte de curto e médio prazo, estabelecer-se no nosso mercado sem contar com as grandes redes. Esse seria o sonho de qualquer editora independente, mas conseguir penetração suficiente sem esses agentes é extremamente difícil”, complementa.

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Produtos artesanais também têm espaço entre as editoras

Criada em 2016, a paranaense Barbante optou por outro formato. Ao estudarem o segmento e perceber que talvez fosse necessária uma estrutura maior – e evidentemente mais investimentos – para competir com editoras já estabelecidas, os jornalistas Alessandro Andreola e Paola Marques decidiram apostar em tiragens menores e produtos mais bem acabados, com um apelo estético único, definindo as artes plásticas, a música e a fotografia como um campo a ser abordado.

“A gente viu que o custo do livro, a partir de mil exemplares, com capa e formato comuns, e um livro mais legal, de capa dura, revestido em tecido e encadernação manual, custava a mesma coisa”, informa Andreola, que além de editor é também autor de dois dos atuais cinco livros que compõem o catálogo da editora. “E a gente viu muito autor que fazia o próprio livro, em uma quantidade de mil [exemplares], mas que não conseguia escoar isso”.

Assim, The War on Drugs: Lost in the Dream, um dos livros da Barbante assinados por Andreola, que investiga, em forma de ensaio, o processo de gravação do quarto álbum da banda norte-americana The War on Drugs, de 2014, contou com uma tiragem de apenas 80 exemplares. O livro, em formato de bolso, com capa dura, acabamento artesanal e ilustrações, é vendido pela internet, no site da editora, e também em livrarias independentes e lojas de discos.

“Hoje a livraria pega seu livro consignado e fica com 50% do valor da capa. A gente buscou lugares que tivessem um acerto melhor, que pode ser de 25% a 40%”, conta. O editor, que assim como sua sócia, segue como jornalista atuando também no mercado editorial e levando a Barbante em paralelo, diz que no momento a empresa consegue se sustentar com o que fatura. Mas que a intenção é que ela se torne trabalho em tempo integral de ambos. “Lançamos cinco títulos em dois anos, e temos quatro engatilhados para lançar em 2018. É pouco se comparar com uma gigante, mas para nós é um aumento considerável. Quanto mais livros a gente tiver, maior o negócio, maior a receita, maior a venda”, vislumbra.

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