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Startup muda a visão sobre presos com tornozeleira no mercado de trabalho

Monitorados no regime semiaberto por tornozeleiras eletrônicas enfrentam dificuldades para se manter empregados, mas iniciativas como a da Geração Bizu estão mudando isso

  • Felippe Aníbal
Assim que conheceu o programa Geração Bizu, a empresária Deborah Dzierwa abriu processo seletivos de presas para sua padaria. | Albari Rosa/Gazeta do Povo
Assim que conheceu o programa Geração Bizu, a empresária Deborah Dzierwa abriu processo seletivos de presas para sua padaria. Albari Rosa/Gazeta do Povo
 
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Em menos de quatro meses, Carlos* foi demitido duas vezes. O rapaz de 26 anos não foi mandado embora por mau desempenho ou por dificuldades de adaptação ao ambiente de trabalho, mas por um estigma: ele usa uma tornozeleira eletrônica, que o monitora no cumprimento de pena em regime semiaberto. Assim que viram o dispositivo, os dois patrões que teve o puseram na rua, sem qualquer justificativa. Uma startup de empreendedorismo social de Curitiba, a Geração Bizu, está se empenhando para, aos poucos, mudar essa realidade.

Experiência profissional, Carlos tem. Passou por uma rede de fast-food e auxiliar uma oficina mecânica. Há dois anos, porém, foi preso em uma operação da polícia, que encontrou carros roubados no quintal de sua casa. Ele cumpriu parte da pena em dois presídios da região metropolitana e, agora, em regime semiaberto, quer deixar este capítulo no passado.

“Eu não quero que a minha mãe e a minha madrinha sofram tudo de novo, nunca mais. Mas este retorno é difícil. As pessoas te olham na rua como se você fosse um nada. Se ninguém der oportunidade, como que a gente vai se reerguer? Não estou pedindo nada de graça. Eu só quero trabalhar”, conta ele, que foi condenado a oito anos e um mês de prisão, por receptação e adulteração de veículos.

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Algumas iniciativas têm tentado amenizar o peso deste estigma. Uma das mais recentes é o programa Geração Bizu, uma startup de empreendedorismo social que está em atuação desde janeiro. O projeto busca a reinserção de monitorados ao mercado, por meio de parcerias com empresas. Mas não é só. O programa aposta em técnicas de coaching e em treinamentos que incluem aulas de dress code e planejamento financeiro. Desta forma, o Geração Bizu pretende acompanhar os presos mesmo depois de terem conseguido emprego, até conquistarem autonomia definitiva.

“Só colocar o monitorado dentro de uma empresa não garante que ele vá se reerguer. A gente quer acompanhar a qualidade desta relação profissional. Este é o processo de mudança”, definiu a assistente social Fernanda Rossa, diretora do Geração Bizu.

É por intermédio do programa que Carlos terá uma nova chance: revender produtos de uma fábrica de chocolates de Curitiba. Mesmo antes de começar no novo emprego, o rapaz já garante máxima dedicação. “Eu vou fazer de tudo pra dar certo, porque eu não vou voltar lá pra dentro”, disse, em referência à penitenciária.

Antes dele, o Geração Bizu formou uma turma de presas do regime semiaberto, monitoradas por tornozeleira. De 20 que começaram o programa, apenas seis concluíram o treinamento. Destas, no entanto, todas foram encaminhadas ao mercado de trabalho e estão recebendo acompanhamento. Têm se saído muito bem. A dificuldade na expansão do projeto tem sido a resistência de empresas a aderiram à iniciativa.

“Nós falamos com 82 empresas, mas conseguimos apenas seis. A gente sabe que o processo é lento, de mudança de paradigma”, avaliou Fernanda.

Parcerias são fundamentais para inclusão de presos e egressos

Há 15 anos atuando em entidades ligadas à defesa dos direitos humanos, a advogada Isabel Mendes, presidente do Conselho da Comunidade de Curitiba, conhece como ninguém essa dinâmica. Por isso, o Conselho da Comunidade atua também para ajudar que monitorados conquistem autonomia. Só neste ano, o órgão encaminhou 13 presos com tornozeleira ao mercado de trabalho. Entre o ano passado e este ano, o Conselho pagou 13 cursos profissionalizantes para egressos do sistema penitenciário. Além disso, o órgão providencia outros auxílios – como vale-transporte e cestas-básicas – até que o preso consiga relativa independência.

“A tornozeleira é um bom instrumento, desde que se tenha apoio. Sem apoio, ela vira uma extensão da prisão”, definiu. “A gente precisa de uma rede de apoio, com a atuação de unidades e de entidades como a Fiep [Federação das Indústrias], ACP [Associação Comercial], OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] e comunidades religiosas. A gente precisa romper esse preconceito”, completou.

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Empresária vai ampliar contratação de presas com tornozeleiras

Assim que conheceu o programa Geração Bizu, a empresária Deborah Dzierwa não teve dúvidas: abriria um processo de seleção para contratar uma presa com tornozeleira para trabalhar em sua empresa – a Padó Padaria. Um mês depois, ela decidiu dar oportunidade a mais uma monitorada.

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A empresária Deborah Dzierwa: “Elas vêm com uma garra, com comprometimento e com uma vontade grande de trabalhar”.Albari Rosa/Gazeta do Povo

“Eu já pedi indicação. Elas vêm com uma garra, com comprometimento e com uma vontade grande de trabalhar. Pela nossa responsabilidade social, temos que apostar nisso e dar oportunidade”, disse Deborah, que também é coordenadora da causa social do Grupo Mulheres do Brasil.

O processo de inclusão da primeira monitorada, no entanto, não transcorreu sem percalços. No período de experiência, manteve-se em sigilo o fato de a nova funcionária ser uma presa do regime semiaberto. Logo na primeira semana, uma colega viu a tornozeleira eletrônica e procurou a patroa, pedindo explicações.

“A gente tinha resolvido não falar nada para as outras, até para não ter alarde. Mas a funcionária que viu [a tornozeleira] entendeu. Todas entenderam e acolheram [a nova colega]. Agora já criaram relação de amizade. Vão juntas pegar ônibus”, relatou Deborah.

Para a empresária, o mais gratificante é acompanhar o progresso da nova funcionária e ter consciência de que está contribuindo para a reinserção social de uma mulher. “Cada um está fazendo a sua parte. Ela está fazendo um trabalho muito bom e vem trabalhar com sorriso no rosto. Ela quer provar para a família que está conseguindo mudar e vai mudar de vida”, destacou.

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“Vou dar a volta por cima”, diz monitorado

Desde que progrediu ao regime semiaberto, Carlos* voltou para a casa dos pais, no Alto Boqueirão, em Curitiba. De lá, ele faz planos para o futuro – e todos passam necessariamente por um novo emprego. Por isso, ele comemora a nova oportunidade em uma fábrica de chocolates e já se anima diante das perspectivas. “É só o começo. Eu vou dar a volta por cima”, assegurou.

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Carlos* e a tornozeleira que o acompanha no regime semiaberto: “Não estou pedindo nada de graça. Eu só quero trabalhar”.Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

Por enquanto, as condições não são das melhores. Divide a pequena casa com a mãe, o irmão, o sobrinho e o padrasto – o único que está empregado. Para dormir, Carlos divide uma cama de solteiro com o irmão de 24 anos. Quando chove, as goteiras fazem jorrar água no piso. Mas para ele tudo isso vai passar. “É temporário. Pode ter certeza”, disse.

O mais importante para ele é reconquistar a confiança da família e não trazer sofrimento para dentro de casa. Por isso, o trabalho é tão importante para ele. A mãe, Maria Sidneia, não é capaz de traduzir o que passou com o filho preso, mas tem uma certeza: não quer voltar a vê-lo em um presídio.

“O que eu pude dar de amor a ela, eu dei. Ver o filho num lugar horrível daqueles é muito triste. Muito triste”, disse. “Mas agora as coisas vão melhorar. Não é só trabalho, ele tem que estar bem. E vai estar”, completou.

*nome fictício

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