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Energia

Lixo radioativo ainda não tem solução final

Usinas de Angra 1 e 2: lixo é armazenado em “piscinas” próximas aos reatores | Marcelo Sayao/EFE
Usinas de Angra 1 e 2: lixo é armazenado em “piscinas” próximas aos reatores (Foto: Marcelo Sayao/EFE)

Um dos principais obstáculos para a conclusão da terceira unidade de Angra foi retirado há pouco mais de uma semana. O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, flexibilizou a 18ª das 60 condicionantes da licença prévia ao empreendimento – aquela que exigia um projeto para o destino final dos rejeitos radioativos antes do início da operação da usina. Agora, segundo Minc declarou à imprensa, o que precisa haver antes do acionamento do reator é "o início da solução definitiva", já que "a solução definitiva ainda não foi encontrada".

E, de fato, nenhuma das 439 usinas nucleares do mundo tem um destino "eterno" para seus rejeitos – o que não significa, necessariamente, que os atuais depósitos sejam inseguros. "Existem reatores nucleares desde a Segunda Guerra, e nenhum deles tem uma disposição definitiva sobre o lixo", explica o doutor em energia nuclear Rafael Schechtman, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE).

O que existe atualmente, segundo ele, são depósitos iniciais – geralmente em "piscinas" próximas aos próprios reatores, protegidas por concreto, como ocorre em Angra – e intermediários. As piscinas servem para resfriar o combustível radioativo já usado, mas que continua emitindo calor. Em geral esse processo demora dez anos, mas o que a maioria das usinas fez foi ampliar as piscinas de modo a acumulá-los por 30 ou até 40 anos – que é a vida útil média de um reator.

"Países com muitos reatores começaram a guardar o material resfriado em prédios na superfície, devidamente isolados. É a chamada solução intermediária. Os rejeitos podem ficar lá por até 300 anos, sem qualquer ameaça à segurança da população. A única coisa que vai ocorrer é que em algum momento esses prédios vão lotar, exigindo novos locais de armazenamento. Não fosse por isso, o lixo poderia ficar lá infinitamente", diz Schechtman.

Segundo ele, a tecnologia para a chamada "solução definitiva" já existe. "É possível armazenar os rejeitos no subsolo, a um quilômetro de profundidade, em rochas graníticas ou minas de sal. Onde há sal, não há água, e portanto, não há contaminação. Acúmulos de argila também servem para isso, pois, embora tenham água, não a deixam sair. Nesses locais, é possível deixar os rejeitos por nove mil anos, quando eles já terão perdido sua radioatividade."

Filosofia

A principal questão que, por enquanto, impede que esses projetos avancem é filosófica, explica o especialista. "Nove mil anos é muito tempo, e é impossível prever o que acontecerá até lá. É tempo suficiente, por exemplo, para que os humanos do futuro nem sequer saibam que no subsolo foram guardados rejeitos radioativos, que poderiam ser descobertos por acidente. O que seria um grande problema."

Para ele, o temor da população em relação à energia nuclear – que provavelmente é a atividade mais controlada e fiscalizada que existe – contrasta com a falta de preocupação com outros rejeitos perigosos bem mais comuns no dia-a-dia, sobre os quais não há qualquer controle. "Ou você sabe para onde seu relojoeiro manda as pilhas de mercúrio que ele trocou do relógio?", questiona.

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