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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu afastar o ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, do comando do dia a dia de sua campanha à reeleição em 2026.
Responsável pelo marketing da vitória petista em 2022, Sidônio havia manifestado desejo de deixar a Secom para se dedicar integralmente à campanha eleitoral. Lula, porém, decidiu mantê-lo formalmente apenas no cargo de ministro.
A decisão ocorre em meio a uma reformulação na coordenação da campanha, agravada pela saída de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete da Presidência.
Marcola deixou o núcleo do Planalto depois que veio a público que havia recebido recursos de Roberta Moreira Luchsinger, empresária e amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
O episódio ganhou peso político porque Roberta é alvo da Operação Sem Desconto, que investiga um esquema de descontos associativos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS (veja adiante).
Nos bastidores, houve disputa de estilos e comando
O afastamento representa uma perda de espaço político para Sidônio, que chegou ao governo com a missão de reformular a comunicação do terceiro mandato e se tornou um dos principais conselheiros de Lula.
Fontes ouvidas pela Gazeta do Povo confirmaram que o desgaste de Sidônio Palmeira vem se intensificando há alguns meses. A insatisfação não se restringe ao presidente Lula e também alcança assessores da campanha e integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT), preocupados com a concentração de poder acumulada pelo marqueteiro.
O episódio determinante foi um bate-boca entre Sidônio e Marcola diante de Lula. Na ocasião, o presidente criticava o tom considerado excessivamente “leve” de uma peça publicitária da Secom. Marcola endossou a cobrança de Lula, provocando um confronto com Sidônio que precisou da intervenção do próprio presidente. As informações foram apuradas pela Folha de S.Paulo.
Na prática, está em disputa a estratégia de comunicação que deverá prevalecer na campanha de 2026. O Planalto deseja explorar a comparação entre os governos do PT e de Jair Bolsonaro, o contraste entre as biografias de Lula e de seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e a defesa da soberania nacional.
Essa linha é defendida pelo grupo formado pela jornalista Nicole Briones, mulher de Marcola, e pelo fotógrafo Ricardo Stuckert. O grupo defende uma postura mais agressiva, com maior exploração de temas econômicos do cotidiano e confronto direto com os adversários. Os dois atuam na comunicação e na produção de conteúdo das redes pessoais de Lula e acompanham o presidente há anos.
Do outro lado está o grupo ligado a Sidônio. Seu sócio, Raul Rabelo, deverá assumir a coordenação de marketing da campanha ao lado de Chico Kertész e Tiago Cesar dos Santos, ex-número dois da Secom. A equipe defende uma comunicação mais propositiva, concentrada na apresentação de resultados do governo e em uma abordagem menos dependente do confronto direto com os adversários.
Para evitar novos conflitos, Lula estabeleceu uma regra de comando: não haverá “duplo comando” na campanha. Raul Rabelo deverá ter autonomia para tomar decisões no marketing eleitoral e não deverá recorrer a Sidônio para arbitrar questões da campanha.
A intenção é deixar claro quem terá autoridade sobre a estrutura eleitoral e evitar a sobreposição entre a Secom e o núcleo responsável pela campanha.
Sidônio tem histórico de atritos e desgastes no governo
A perda de espaço de Sidônio foi alimentada por episódios acumulados nos últimos meses. Em março, o ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), questionou a capacidade da Secom de fazer chegar à população as realizações do governo. Durante uma reunião ministerial, Costa afirmou que as entregas da gestão não estavam sendo conhecidas pelo público e direcionou a cobrança a Sidônio.
No mês seguinte, Lula cobrou Sidônio depois de receber relatórios sobre o desempenho das redes oficiais do governo. O presidente questionou a quantidade de imagens de animais, paisagens e conteúdos considerados leves publicados pelo perfil oficial @govbr e comparou a presença de sua imagem nas redes brasileiras com a exposição de Donald Trump nos canais oficiais da Casa Branca.
Sidônio argumentou que existem restrições legais ao uso da imagem presidencial em canais institucionais. A justificativa, porém, não encerrou a insatisfação de Lula.
Mais recentemente, Sidônio provocou desconforto na cúpula petista ao sugerir o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) como uma alternativa para o governo de Minas Gerais. Em um episódio anterior, havia apresentado a ideia de criação de uma estrutura de segurança pública ligada à Casa Civil depois da operação policial realizada no Rio de Janeiro em outubro de 2025, que terminou com 121 mortos.
A proposta foi interpretada como uma tentativa de ampliar a atuação da Casa Civil sobre uma área que estava sob responsabilidade do Ministério da Justiça e Segurança Pública, então comandado por Ricardo Lewandowski.
Mudanças chegam em momento de desgaste na campanha
O objetivo do Planalto é estabelecer uma cadeia de comando mais clara e reduzir os conflitos entre a comunicação institucional do governo e o núcleo responsável pela eleição.
A estratégia deverá seguir a mesma linha defendida pelo grupo ligado a Briones e Stuckert: comparação entre os governos do PT e de Bolsonaro, contraste biográfico com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e defesa da soberania nacional.
A comunicação também deverá explorar temas econômicos do cotidiano, especialmente aqueles com impacto direto sobre a renda e o custo de vida dos eleitores.
A mudança ocorre em um momento em que o governo enfrenta dificuldades para transformar suas entregas em percepção positiva junto ao eleitorado e em que a campanha precisa responder a uma série de crises políticas envolvendo pessoas próximas ao presidente.
Relembre o caso Lulinha
O caso Marcola e as relações de Roberta Luchsinger com Lulinha acrescentaram uma nova camada de desgaste ao núcleo político de Lula. Embora as investigações ainda estejam em andamento e não haja conclusão da PF sobre eventual participação criminosa de Lulinha, o episódio aproximou as investigações sobre o escândalo do INSS do círculo familiar do presidente.
Lulinha ganhou dimensão institucional depois que a CPMI do INSS tentou quebrar seus sigilos bancário, fiscal e telemático. A medida foi suspensa pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), sob o argumento de que medidas dessa natureza precisam apresentar fundamentação individualizada.
A relação de Lulinha com Roberta Luchsinger passou a chamar atenção no contexto da Operação Sem Desconto. A empresária é investigada por suas relações com integrantes do esquema de fraudes em descontos de aposentados e pensionistas do INSS e confirmou à PF que conhecia Lulinha. Ela também admitiu ter sido responsável por apresentá-lo a Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, mas negou ter feito pagamentos ao filho do presidente.
Posteriormente, a PF continuou aprofundando as investigações. Em julho, um relatório enviado ao STF indicou que a apuração sobre Lulinha segue separada de outros núcleos já concluídos do caso do INSS e busca esclarecer especificamente sua eventual relação com o grupo de Antunes.
A PF ainda não apresentou conclusão definitiva sobre essa frente de investigação. A existência da apuração, contudo, aumentou a sensibilidade política do caso para o Planalto, especialmente depois que Marcola, integrante da estrutura mais próxima de Lula, admitiu ter recebido recursos de Roberta Luchsinger.




