
Qualquer ator político realmente comprometido com a democracia precisa saber perder: reconhecer quando o eleitorado preferiu outro candidato ou partido e trabalhar para recuperar o terreno até o próximo pleito. Não é o caso do petismo. Além dos já conhecidos esquemas de corrupção montados com o objetivo de perpetuar o PT no poder, a legenda ainda parte para o jogo sujo quando pressente a mera probabilidade de derrota – e tem sido assim há muito tempo, como sabe quem se lembra do escândalo do “dossiê dos aloprados”, em 2006. A diferença, de lá para cá, é que o partido aprendeu a usar também a própria Justiça como cúmplice.
O ex-procurador Deltan Dallagnol, candidato ao Senado cujo caso a Gazeta do Povo vem acompanhando de perto, não é o único a sofrer com essa estratégia. O petismo pensa grande, e quer levar para o tapetão a disputa mais importante do próximo mês de outubro, com o objetivo de tirar Flávio Bolsonaro da corrida presidencial. O pretexto é a alegação estapafúrdia, que Lula chegou a repetir na tribuna da ONU, de que o senador do PL seria beneficiado por uma suposta interferência estrangeira na eleição – assunto de que Lula entende muito, pois ele e o PT não pensam duas vezes antes de ajudar camaradas em eleições de vários países latino-americanos; o caso mais recente foi o de 2023, na Argentina, quando marqueteiros petistas foram enviados para turbinar a campanha de Sérgio Massa, que acabou derrotado por Javier Milei.
Para evitar um resultado adverso em 4 e 25 de outubro, o PT está preparando um “terceiro turno” – que, a depender da pressa dos ministros amigos, pode até acontecer antes dos dois primeiros
A ofensiva petista se dá em duas frentes: no Tribunal Superior Eleitoral, conta inclusive com o reforço de Renan Santos, candidato do Missão, com base em supostas publicações impulsionadas feitas por perfis da direita norte-americana com cotações da plataforma Polymarket que indicam favoritismo de Flávio em outubro – Renan ainda mencionou uma suposta negociação para a exploração de terras raras no Brasil. Além disso, como garantia, o PT também foi ao STF pedir que o candidato do PL seja investigado pelo mesmo motivo. E, para acrescentar um detalhe sórdido à tentativa de melar a eleição no Supremo, os petistas usaram um truque que tem se tornado cada vez comum.
O pedido de investigação contra Flávio foi inserido em uma ação já existente, relativa à possibilidade de municípios brasileiros litigarem perante tribunais estrangeiros. Que relação isso tem com supostas interferências estrangeiras na eleição? Zero, obviamente. Mas inventou-se um elo qualquer, invocando questões de “soberania”, para garantir que o pedido contra Flávio constasse da ADPF 1178. E por que essa ação em específico? Porque ela é relatada por Flávio Dino, o ex-ministro da Justiça de Lula e aliado político do presidente candidato à reeleição. Trata-se, portanto, de puro malabarismo jurídico destinado a colocar o pedido nas mãos de um ministro considerado amigável às súplicas do petismo, evitando o sorteio.
O PT recorre ao truque agora porque sabe que ele funciona. O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, o usou recentemente para recuperar o cargo pelas mãos do mesmo Flávio Dino após ter sido afastado por ordem de André Mendonça, fazendo seu pedido dentro de um inquérito relacionado ao filme Dark Horse. Gilmar Mendes foi ainda mais longe: em fevereiro, ressuscitou uma ação já arquivada, da produtora Brasil Paralelo, para blindar o colega Dias Toffoli e anular a quebra dos sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático da empresa familiar dos Toffoli, que negociou com Daniel Vorcaro.
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E, se o truque funciona, é porque há ministros do Supremo que o fizeram funcionar, pois chegaram a tamanho grau de degradação moral e institucional que não se veem limitados por absolutamente nada. Já é suficientemente torpe que essa mistura de malandragem jurídica com abuso de autoridade sirva para atrapalhar ou impedir investigações, ou para atropelar decisões “desagradáveis” de outros ministros. Agora, ela é vista como o meio para potencialmente cassar a voz de dezenas de milhões de eleitores brasileiros. Recorrendo a esse artifício para colocar o destino da candidatura de Flávio Bolsonaro nas mãos de Flávio Dino, o PT torna-se cúmplice do abuso – embora saibamos que isso não haverá de incomodar um partido que já não tem bússola moral há décadas. Essas práticas incompatíveis com o Estado de Direito e o devido processo legal envergonhariam qualquer pessoa idônea, mas não quem acredita que se pode “fazer o diabo” para vencer uma eleição, nas imortais palavras de Dilma Rousseff.
Candidatar-se não é um direito absoluto – a lei brasileira tem uma lista de circunstâncias que tornam alguém inelegível; circunstâncias concretas, como a condenação por órgão colegiado por determinados crimes, como aconteceu com Lula em 2018. Abusos de poder político e econômico também existem, ninguém haverá de negá-lo. Mas o que estamos vendo agora é diferente. Para evitar um resultado adverso em 4 e 25 de outubro, o PT está preparando um “terceiro turno” – que, a depender da pressa dos ministros amigos, pode até acontecer antes dos dois primeiros –, pois confia mais em um pequeno grupo togado que no voto de dezenas de milhões de brasileiros, e não hesitará em fazer a vontade desse grupo prevalecer sobre o desejo do eleitor. E ainda há quem acredite que Lula é realmente um “democrata”...



