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Eduardo Peluzo, proprietário da agência de turismo Mèrola.
Eduardo Peluzo, proprietário da agência de turismo Mèrola.| Foto: Divulgação

Recepcionar turistas estrangeiros, organizar roteiros luxuosos e atender a todos os pedidos de clientes. Esse era o plano para 2020 de Eduardo Peluzo, proprietário da Mèrola, uma agência de turismo com sede no Rio de Janeiro, especializada em imóveis de alto padrão, serviços de concierge e experiências exclusivas pelo Brasil.

A chegada do coronavírus ao país, entretanto, paralisou o setor de turismo: os desembarques internacionais na cidade maravilhosa caíram 72% no ano passado.

No caso da Mèrola, interromper as atividades não era uma opção, segundo Peluzo. Para ele, a solução foi se adaptar a um outro perfil de turista e desenvolver novos passeios para a fase de retomada.

Conheça essa trajetória a seguir, em mais uma reportagem da série O Brasil que inspira, que apresenta histórias de coragem, criatividade e perseverança, de brasileiras e brasileiros que encontraram novas formas de trabalhar e empreender em meio à pandemia.

Agência foi criada quando o turismo estava em alta

A agência Mèrola foi criada em maio de 2019, época em que o turismo estava em alta no Brasil. A Pesquisa Mensal de Serviços do IBGE mostra que o volume de atividades turísticas cresceu 2,7% naquele ano, praticamente o dobro da variação do PIB (1,4%).

Peluzo, que tem 26 anos e é formado em Administração pelo Ibmec-RJ, conta que decidiu empreender no ramo por afinidade pessoal. “Não gosto de rotina ou escritório, mas sempre gostei de fazer conexões, criar amizades e receber pessoas de fora. Gostava de orientar turistas, via na rua, tentava ajudar. Por outro lado, nunca gostei de fila, de enfrentar perrengue", conta. "Então veio a ideia de atuar no segmento de luxo, levar o turista para conhecer restaurantes estrelados Michelin, conhecer pontos inusitados."

Com dificuldade em conseguir uma vaga na área e movido pelo desejo de conseguir resultados rápidos, Peluzo decidiu empreender por conta própria. Não precisou de um alto investimento para dar início aos negócios, e o capital de giro necessário também era baixo.

Começou prestando serviços como free lancer. Em uma dessas ocasiões, em agosto de 2019, recepcionou uma “turista dos sonhos”, uma espanhola de 53 anos e o companheiro dela, que faziam uma viagem sem restrições orçamentárias. Eles se hospedaram em uma mansão conhecida como Casa de Joá, que já abrigou celebridades como Justin Bieber.

Peluzo organizou jantares, passeios de barco e outras facilidades para o casal. Mas a madrilena queria uma experiência mais inusitada: pilotar em um autódromo. Após sondar sua rede de contatos, Peluzo conseguiu uma data na pista de Piracicaba (SP). O carro escolhido foi um Fórmula Palio, disponível na capital paulista, a 150 quilômetros do autódromo. A operação envolveu – de forma muito resumida – aluguel de cegonha para transportar o veículo, fretamento de jatinho para deslocamento do casal e ainda uma emergência médica às vésperas do passeio.

“Foi uma experiência única, distinta. Foi o combustível que precisava para tocar o negócio”, conta Peluzo. Com o dinheiro da comissão, ele viajou para Londres em novembro de 2019, onde participou da World Travel Market Expo (WTM London) e da Luxury Travel Fair. Um dos objetivos era prospectar agências no exterior, para futuras parcerias, mas o carioca precisou desistir.

“É um mercado muito fechado, as parcerias foram firmadas há mais de dez anos, e é muito difícil aceitarem uma empresa nova. Por sorte as coisas mudaram. Hoje consigo prospectar diretamente meu cliente final, não preciso de uma agência parceira lá fora”, pondera Peluzo. Ele diz que com as ferramentas adequadas de marketing digital, ele consegue se apresentar diretamente para um milionário, mesmo estrangeiro, através das redes sociais.

Com menos estrangeiros, empresa mudou seu modelo de negócio

O obstáculo, claro, foi a pandemia, com todas as restrições impostas mundo afora e uma queda drástica no turismo estrangeiro por aqui. Segundo a Agência Nacional de Aviação (Anac), os desembarques de voos do exterior para o Brasil totalizaram 3,2 milhões de passageiros pagantes em 2020, 72% menos que no ano anterior – mesma variação registrada nos desembarques estrangeiros na cidade do Rio de Janeiro. Em paralelo, pesquisa do IBGE apontou queda anual de 37% no volume de atividades turísticas no Brasil.

Em junho de 2020, a FGV Projetos divulgou o estudo “Impacto Econômico da Covid-19: propostas para o turismo”, estimando perdas de 29,8% no setor turístico brasileiro para o biênio 2020-2021. A projeção era de que o turismo internacional levaria 24 meses para voltar ao nível de 2019, com recuperação apenas a partir de agosto de 2021.

O alívio era que o turismo doméstico começaria a retomada antes, no segundo semestre de 2020 – e foi isso que salvou a Mèrola.

“Meu modelo de negócio era atender o estrangeiro. Isso foi ruim durante a pandemia. Tive que me adaptar, voltar os olhos para o mercado interno. E o brasileiro ainda não valoriza muito esses roteiros customizados, de experiências únicas. Então o que fiz muito foi alugar casa, alugar barco. Não era o que tinha proposto inicialmente, mas fiz para manter vivo meu sonho”, observa.

O aluguel de curta temporada se manteve aquecido no Brasil principalmente pela flexibilidade possível com o home office. Podendo trabalhar de qualquer lugar, muitos brasileiros – principalmente de alta renda – optaram por passar dias ou semanas em casas mais amplas ou afastadas da cidade, por exemplo.

Ao longo de 2020, Peluzo começava cada mês sem saber qual seria sua renda. Mas conseguiu dinheiro para pagar as contas e reinvestir no negócio. Ele trabalha sozinho, mas tem contratos com escritórios de advocacia e informática. O empreendedor conta que não se abateu nesse período todo, pois todo o custo de operação era baixo, ao contrário do que ocorre com agências grandes e consolidadas.

Peluzo diz estar em um momento em que não se pergunta mais “se vai dar certo”. Ele acredita nesse mercado e vê uma demanda reprimida por passeios: “Há os brasileiros que começaram a ver todos os destinos de luxo que existem aqui no Brasil. E para o turista de fora está muito barato vir para cá, por causa do câmbio. Há um mar de oportunidades”.

Quando concedeu a entrevista, no início de agosto, o empreendedor estava em busca de um funcionário para fazer gestão de mídia da marca. “Estou investindo muito no audiovisual. Isso faz toda a diferença”, relatou.

Passeio no Vidigal: experiência para o turista e renda para a comunidade

Para marcar o que considera uma retomada do turismo, Peluzo lançou no fim de maio o Vidigal Experience, proposta da Mèrola que leva o turista para conhecer de perto a comunidade, sua arte urbana e projetos sociais. Como os passeios na favelas já são um programa usual no Rio – há grande demanda por parte do turista estrangeiro –, o objetivo era montar um programa sustentável e de impacto.

Um guia local, Edmilson Morais, conhecido como Russo, coordena o passeio no Morro do Vidigal, no qual os interessados podem participar de aulas de capoeira e percussão, além de grafitar muro e comer uma refeição caseira na residência de uma moradora. “Com esse passeio, os projetos locais são remunerados e com isso têm meios de continuar funcionando e atendendo à comunidade, principalmente crianças”, diz Peruzo.

Para o futuro, o plano do empreendedor é consolidar o serviço de agência, para deixar de ser um “concierge bombeiro” – que atua nas emergências – para oferecer cada vez mais viagens planejadas ao gosto do turista.

Uma mudança importante foi se credenciar como corretor imobiliário, para atuar diretamente no aluguel de casas. “A pessoa primeiro quer saber onde vai ficar para depois decidir os passeios. Através das casas vou conseguir ofertar uma experiência personalizada e on demand”, explica.

Esta é a segunda reportagem da série O Brasil que inspira, que conta histórias de brasileiras e brasileiros que encontraram novas formas de trabalhar e empreender durante a pandemia de coronavírus. Acompanhe:

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