
A disparada do dólar não resultou em elevação na procura pelos fundos cambiais aqueles que tentam acompanhar a variação da moeda americana. Pelo contrário: a categoria encerrou setembro com saques líquidos de R$ 65,5 milhões, segundo a Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid). Com o dólar em níveis que não se via há mais de um ano, os fundos cambiais foram a categoria que mais rendeu em setembro: 16,51%. Mesmo assim, não atraíram investidores, como ocorreu em outros momentos de crise e pressão no câmbio.
Os fundos cambiais não dão exatamente o retorno da moeda estrangeira em determinado período. Isso acontece porque suas carteiras não são formadas apenas por dólares, mas carregam títulos públicos atrelados à moeda estrangeira e aplicações em papéis cambiais negociados na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F). De qualquer forma, a rentabilidade da categoria se mostrou imbatível no mês passado. William Eid Júnior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV, diz que, mesmo com a escalada recente do dólar, aplicar na moeda não é mais uma opção interessante. "Dólar não é investimento. Há tempos as pessoas aplicavam em dólar, mas o mercado de fundos não oferecia alternativas como as de hoje."
Apenas a quem vai viajar ou terá despesas em moeda estrangeira no futuro costuma ser recomendado adquirir dólares ou tentar fazer alguma espécie de seguro contra as oscilações e entre essas possibilidades está aplicar em um fundo cambial.
O dólar encerrou o dia de ontem vendido a R$ 2,19, em seu mais elevado patamar desde setembro de 2006. Só no mês passado, a moeda norte-americana sofreu valorização de 16,45% diante do real.
Desde a crise do período pré-eleitoral de 2002 não se via uma alta tão expressiva da moeda em um mês. Em 2002, o dólar chegou a encostar em R$ 4, em meio às dúvidas que rondavam o futuro da economia brasileira com a eleição de Lula à presidência.
A moeda americana iniciou agosto em torno de R$ 1,56. Mas não conseguiu se sustentar em patamar tão baixo. A piora na crise internacional elevou a especulação contra a moeda brasileira e chegou a fazer com que o Banco Central vendesse dólares no mercado, como forma de atenuar a pressão sobre as cotações.
O futuro do câmbio é difícil de estimar. O relatório Focus, que o Banco Central divulga todas as segundas e é formado pelas expectativas dos departamentos de pesquisa de bancos, consultorias e universidades sobre diversas variáveis econômicas, mostrou que as instituições esperam que o dólar encerre o ano cotado a R$ 1,80. Há uma semana, esse "palpite" era de R$ 1,70. Há quatro semanas, de R$ 1,65. As instituições apontadas como top five ou seja, as que têm maior índice de acerto apontam R$ 1,85 para o dólar, em dezembro.
"A cotação ainda vai flutuar bastante", diz o professor Christian Luiz da Silva, da PUC-PR. "Ele [o dólar] ainda está bastante influenciado pelo mercado especulativo."
Encolhimento
O patrimônio dos fundos cambiais está atualmente em R$ 721 milhões, o que representa apenas 0,06% do total da indústria de fundos. Em 2001, a categoria chegou a responder por 2,5% do total, com patrimônio superior a R$ 12 bilhões. Mas a contínua apreciação do real desde 2003 fez com que a categoria encolhesse ano a ano. Hoje são poucos os analistas que ainda recomendam aplicações nesse tipo de fundo.



