
Quase 20% dos curitibanos atrasaram o pagamento de contas por mais de três meses no último ano, revela levantamento da Paraná Pesquisas. O endividamento está concentrado nas contas do cartão de crédito, prestação do carro e da casa própria e, ao contrário do que se esperava, não é apenas a classe média que se atrapalhou com o crédito farto e o acesso ao consumo.
Segundo a pesquisa, 56,41% dos que ganham entre seis e dez salários mínimos e 51,28% dos que têm renda acima de dez salários mínimos possuem dívidas. Quem ganha mais está se endividando mais rapidamente do que os mais pobres. O índice supera o das famílias que tem renda até três salários mínimos (45,86%) e entre três e seis salários mínimos (45,33%).
Uma explicação para isso está no fato de que com a confiança na economia, o aumento da renda e o pleno emprego, as classes com maior renda passaram a gastar mais, com a compra de mais um carro, a troca do imóvel ou as despesas do cartão de crédito.
De acordo com o levantamento, que ouviu 410 pessoas, outro dado que chama a atenção é a inadimplência nas contas por mais de 90 dias, que está em 18% mesmo entre os mais ricos.
Uma outra pesquisa, realizada em todo do Brasil pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), confirma esse fenômeno. O maior índice de atraso acima de 90 dias está entre as famílias que ganham acima de dez salários mínimos 43,3% contra 41,7% dos que têm rendimento abaixo de dez salários mínimos.
"Os mais ricos também têm mais acesso ao crédito e a um padrão de consumo que também cresceu", diz Raphael Cordeiro, consultor financeiro de investimentos.
Segundo ele, o que é preocupante é que a inadimplência cresceu mesmo com taxas de desemprego muito baixas, o que pode complicar em caso de aumento da desocupação nos próximos meses. Não há um risco para a economia, mas um temor para os indivíduos.
Segundo dados do Banco Central, a inadimplência média do brasileiro sobre o saldo emprestado vem crescendo e atingiu 7,6% em janeiro. No mesmo período do ano anterior, ela estava em 5,7%.
Pelo menos dois fatores ajudam a explicar o aumento do calote. No ano passado, o orçamento familiar foi pressionado pela inflação alta, que comprometeu principalmente preços de serviços, como alimentação fora de casa, colégios, aluguel. Ao mesmo tempo, a população aderiu à euforia do crédito e vêm se endividando com empréstimos mais caros, como o do cartão de crédito, cujo limite é pré-aprovado, mas que cobram taxas mais caras.
Um comportamento comum que leva ao endividamento, principalmente entre os mais ricos, é a manutenção do padrão de vida mesmo quando há perda de renda. "Em geral as famílias têm muita dificuldade em administrar perda de poder aquisitivo", acrescenta Cordeiro.
Para Pedro Guilherme Ribeiro Piccoli, professor de Finanças da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o endividamento cresceu principalmente por conta do estímulo ao crédito e da queda na taxa de juros. "Provavelmente estamos muito perto do pico do endividamento e do crédito. A questão será saber se essa curva vai começar a mudar logo ou não", diz.
Cartão de crédito leva R$ 8 mil por mês
João Pedro Schonarth
O empresário Paulo Leão conheceu os dois lados da moeda. Com gastos elevados, chegou a pagar juros de R$ 5 mil no cartão de crédito há quatro anos. Mas diz que hoje a situação é diferente. Conhece o tamanho da sua dívida: dois carros, financiados em nome da empresa, que trabalha com revestimento para piso industrial e emprega oito funcionários. Mesmo assim, seu gasto mensal é alto, resultado do uso frequente do cartão de crédito: R$ 8 mil por mês, pagos pontualmente no dia do vencimento. "Tenho como lema ser autossuficiente e tive dívidas por causa da empresa", conta Leão.
Hoje mora de aluguel na casa da sogra, por opção, e paga mensalmente R$ 700, "um valor simbólico", segundo ele. "Eu podia usar meu crédito para comprar uma casa, mas prefiro deixá-lo à disposição para adquirir algum equipamento para a empresa, por exemplo. Isso ajudaria a aumentar minha receita. Eu prefiro pagar aluguel a estar endividado", afirma.
O plano atual é continuar a pagar o consórcio de um imóvel, que será construído em um terreno próprio de 3 mil metros quadrados em Colombo, na região metropolitana de Curitiba. Não sabe, porém, se usa o dinheiro da poupança para dar o lance ou aguarda ser contemplado. Também não tem pressa.
Planos
Há alguns anos vendeu uma chácara que tinha em Colombo, após o falecimento da mãe, que vivia no local. Usou parte do dinheiro, R$ 50 mil, para pagar o casamento da filha e patrocinar uma viagem à família ao exterior. Duas filhas moram nos Estados Unidos e os pais visitam as duas pelo menos a cada dois anos no ano em que não vão, as filhas vêm para Curitiba, e já contaram com a ajuda do pai. "É melhor gastar só o que você tem e investir, evitando dívidas. Hoje posso dizer que atingi a estabilidade, com uma boa reserva em caixa", ressalta o empresário.



