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Expressão

Mexicana faz filme sobre “confinamento” da gripe

No auge da epidemia, o governo mexicano fechou empresas e escolas. Trancada em casa, uma estudante decidiu transformar a quarentena em documentário, via internet

“O filme é direcionado totalmente pelas pessoas. Se fossem mais sérias, o filme também seria. E, pelo fato de elas terem mandado os vídeos e não serem filmadas por um estranho, os sentimentos são mais genuínos, espontâneos.” Andrea Ortega, estudante de Comunicação na Cidade do México | Divulgação
“O filme é direcionado totalmente pelas pessoas. Se fossem mais sérias, o filme também seria. E, pelo fato de elas terem mandado os vídeos e não serem filmadas por um estranho, os sentimentos são mais genuínos, espontâneos.” Andrea Ortega, estudante de Comunicação na Cidade do México (Foto: Divulgação)

São Paulo - Foram 12 dias trancados em casa. Aulas suspensas, restaurantes fechados e só os serviços essenciais funcionaram. No ápice do pânico da gripe suína na Cidade do México, há até duas semanas, com o próprio pedido do governo, cidadãos se isolaram em suas residências, sem sair às ruas, que ficaram vazias. Nesse caos total, um escape: a internet.

Andrea Ortega, de 23 anos, é mais uma entre os 20 milhões de habitantes da cidade que tiveram de parar sua rotina e ficar em casa a fim de se prevenir. Como todos, ela, uma estudante do último ano de comunicação, perdeu contato físico com amigos e familiares. Como muitos, para matar o tédio e buscar notícias, encontrou em sites como Twitter e Facebook a ligação com o mundo.

Aí teve um estalo. E uma ideia que a destacou na multidão: por que não usar a rede, onde muitos estavam, para captar esse momento extremo e fazer um documentário? Ela, que nunca havia feito um filme, estava sem aulas e passava horas na web, precisava achar um tema para o seu Trabalho de Conclusão de Curso – ela termina a universidade em julho. Daí uma coisa levou à outra.

Assim nasceu o projeto "Días de Encierro" (Dias de Reclusão, em português), um documentário que nasceu na internet, com material da internet e que terá seu término, a exibição, na internet. "Estava em casa, como todos, sem nada o que fazer. E vi uma grande movimentação de mexicanos que, como eu, estavam na web para compartilhar o tédio e o isolamento", diz ela.

Só que Andrea não se contentou com os textos do Twitter e do Facebook. "Eu queria ver as pessoas, como encaravam esse momento. Não queria palavras." E veio a ideia: com o mesmo espírito de compartilhamento da web, convidou internautas a mandarem vídeos caseiros contando como se sentiam. Para isso, acionou a sua lista de quase 100 seguidores no Twitter e montou o blog http://diasdeencierro.com.

Isso foi no dia 28 de abril – quatro dias depois de o governo pedir para os mexicanos ficarem em casa. Logo no dia seguinte, um dos principais jornais do país, o Reforma, deu destaque para a história. Depois, vieram outros jornais e até a tevê. No Twitter, por um pedido de Andrea, um usuário transmitia para o outro o convite para participar. O blog do filme cresceu em acessos.

Após causar rebuliço, a estudante conseguiu 50 depoimentos, a maioria de moradores da Cidade do México. E o que era só um trabalho acadêmico virou um "webfilme" que deve estrear num dos mais conceituados sites de cinema do México. "Meu professor, quando viu todo o barulho, fez questão de me lembrar que era um trabalho universitário. Lógico, com proporção e repercussão inimagináveis."

Nos vídeos, diz Andrea, há de tudo, desde críticas a como o governo conduziu a crise a brincadeiras. E nos mais diferentes formatos: gravados na webcam, com a câmera do celular ou câmera profissional. "Ficou muito claro o espírito do mexicano, de fazer brincadeiras mesmo nessas horas. As pessoas mandaram vídeos com músicas que fizeram sobre a gripe, outro disse que, de tanto tédio, já sentia que os utensílios de cozinha conversavam com ele".

Embora de formas diferentes, Andrea diz que os vídeos apontam para o mesmo sentimento, tédio e cansaço do isolamento, o mesmo que ela sentiu. "O filme é um retrato desses dias. E direcionado totalmente pelas pessoas. Se fossem mais sérias, o filme também seria. E, pelo fato de elas terem mandado os vídeos e não serem filmadas por um estranho, os sentimentos são mais genuínos, espontâneos. Esse é o valor do filme."

Agora, Andrea terá um trabalhão para selecionar todo o material e editar em um documentário de 30 minutos, que precisa ser entregue na primeira semana de junho à sua universidade. Seguindo o espírito colaborativo, ela convocou amigos para escrever o script e fazer a edição. Além disso, também irá disponibilizar de graça para download e no YouTube. O próximo passo? "Quem sabe esse barulho todo não me abre portas? Por ora, porém, quero me formar. Afinal, ainda é um trabalho acadêmico."

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