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Entrevista

Nasce mais um guru corporativo

Yoshio Kawakami, 59 anos, presidente da Volvo Contruction Equipment (VCE)

 | Henry Milléo/Gazeta do Povo
(Foto: Henry Milléo/Gazeta do Povo)

Nos últimos doze anos, Yoshio Kawa­­­kami, de 59 anos, multiplicou por doze o faturamento da Volvo Contruction Equipment (VCE) Latin America e transformou a subsidiária, que tem fábrica em Pederneiras (SP) e sede em Curitiba, em uma das estrelas do conglomerado sueco, com faturamento de US$ 716 milhões no ano passado, 1,1 mil funcionários e mais de 100 modelos de máquinas para a construção no mercado brasileiro.

Há 37 anos no mundo corporativo, Kawakami, que antes de assumir a VCE em 2000 foi presidente da Cummings no Japão, está se aposentando. Vai escrever um livro sobre mundo corporativo, dar consultoria e a fazer palestras, além de aproveitar as viagens off-road, que gosta de compartilhar com a família pela América do Sul.

Para ele, com a ascensão das economias emergentes, as multinacionais terão de sair do discurso e colocar em prática o "pense globalmente e atue localmente". Nesse novo arranjo mundial, as companhias também não poderão mais atribuir apenas aos custos de mão de obra e ao câmbio os problemas de falta de competitividade. "Contratar um funcionário qualificado em Xangai não é tão mais barato que empregar um em Curitiba", diz ele.

A Volvo aproveitou o boom do setor da construção pesada nos últimos anos. Esse mercado continuará a crescer?

Acredito que o mercado de equipamentos para construção na América Latina crescerá entre 7% e 8% por ano na próxima década. Trata-se de uma média, poderemos ter crescimento mais expressivo em alguns anos, impulsionado pela realização dos eventos esportivos programados, por exemplo.

Como a VCE conseguiu crescer tanto em pouco mais de uma década?

Nos preparamos para o crescimento de mercado, o que se confirmou a partir de 2004. Investimos na expansão da linha de produtos e abrimos canais de relacionamento com os clientes.

Qual a participação dos demais países da América Latina nos negócios e quanto a empresa vem investindo no Brasil?

Nos últimos cinco anos, temos investido em média US$ 10 milhões por ano na fábrica em Pederneiras (SP). O volume tem ido principalmente para a renovação de produtos. Hoje 60% das nossas vendas são no Brasil e o restante, na América Latina. Dos produtos vendidos, 70% são produzidos aqui.

O governo federal lançou um pacote de investimentos para infraestrutura. Os recursos serão suficientes?

Muita coisa vem sendo feita. Nos últimos dez anos, os investimentos no setor portuário aumentaram 12 vezes, no ferroviário, sete e em rodovias, seis vezes. O setor que hoje mais demanda recursos é o de aeroportos, cujo crescimento dos investimentos foi menor, algo incoerente com a demanda crescente. A China investe muito mais em infraestrutura que o Brasil...

Os investimentos em infraestrutura são uma alavanca para o crescimento chinês, ao contrário do Brasil em que eles vêm para dar conta da demanda. São conceitos diferentes. Mas na China não há licitações, as obras são feitas pelo governo central e os projetos são aprovados muito rapidamente.

As empresas reclamam muito da concorrência chinesa e da perda de competitividade com o câmbio e a mão de obra.

As empresas precisam investir em produtividade e eficiência. A questão do câmbio não é central e a mão de obra brasileira não é tão mais cara que a chinesa, quando estamos falando de empregados com qualificação. Há três anos eu fiz uma pesquisa e verifiquei que o salário de entrada de um funcionário em Xangai não é muito diferente daquele de um empregado em Curitiba. O que difere é a carga tributária, mas essa diferença não é tão grande como muitos dizem.

O senhor mantém há três anos um blog sobre o mundo corporativo. Qual o papel da "geração Y" nos próximos anos?

Muitas corporações têm profissionais no topo na faixa dos 50 anos, e como há uma escassez de pessoas de 40 anos nas empresas, muitas vezes são os jovens que têm sido treinados para ocupar esses cargos. Mas as empresas terão de aprender a lidar com esse novo perfil e saber que é a sociedade que molda os profissionais e as empresas. Não adianta exigir, por exemplo, que esses jovens, que gostam de mudança, permaneçam por longo período nas empresas.

Qual o desafio das grandes corporações nas próximas décadas?

Com a crise econômica e as taxas de crescimento tímidas nos Estados Unidos e na Europa, os mercados emergentes desafiam as empresas a colocar cada vez mais em prática o "pense globalmente e atue localmente". Nesse sentido, os profissionais precisarão ter conhecimento de mercado local, habilidade de comunicação e mobilidade. Mas cada vez mais essas características deixarão de ser um diferencial e as empresas terão de achar novos caminhos para crescer.

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