
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reúne hoje e amanhã, e qualquer decisão que não seja a manutenção da taxa básica de juros (Selic) no atual patamar de 8,75% ao ano, o menor da história pegará o mercado inteiro de surpresa. Faz quatro meses que os bancos e consultorias consultados semanalmente pelo BC apostam em Selic estável até o fim de 2009, e essa é a expectativa unânime dos economistas ouvidos pela Gazeta do Povo.
Mas o consenso vira pó quando o assunto é o comportamento da inflação e dos juros em 2010. Embora a maioria ache inevitável uma alta da taxa básica, não é difícil encontrar quem só veja motivos para isso a partir de 2011.
Na média, as estimativas para a Selic vêm avançando. Um mês atrás, esperava-se que o juro básico subiria para 9,25% no fim de 2010. Agora, já se aguarda um aumento para 10,5%, conforme o boletim Focus publicado ontem. A previsão para a inflação em 2009 praticamente não mudou nos últimos 30 dias recuou de 4,31% para 4,30% , mas a projeção para o ano que vem teve leve aumento, passando de 4,3% para 4,41%. Em ambos os casos, abaixo do centro da meta do BC, que é de 4,5% ao ano.
Para cima
Em relatório publicado ontem, o economista-chefe do Banco Schahin, Sílvio Campos Neto, apontou que "o ritmo veloz da retomada da demanda pode levar o BC a iniciar um ajuste da política monetária nos próximos meses". A alta dos juros, segundo ele, deve começar em abril.
Para a professora Nora Raquel Zygielszyper, professora do Instituto Superior de Administração e Economia (Isae/FGV), a Selic pode subir mais cedo, em janeiro. "As expectativas para o PIB estão aumentando. Isso quer dizer mais demanda, que vai extinguindo a capacidade ociosa das fábricas. O governo até poderia ajudar se pusesse um pé no freio, reduzindo seus gastos, mas eu duvido que isso ocorra num ano eleitoral."
Para o economista João Basílio Pereima, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), ao apostar em alta do juro, o mercado "tenta jogar a taxa para cima e antecipar algo que talvez ocorra no fim de 2010". "Apesar da expansão dos gastos, o governo ainda terá superávit primário [economia para pagar os juros], o que indica que está tirando mais dinheiro do que colocando na economia", argumenta. "Vejo apenas dois fatores críticos. O câmbio, que por enquanto está se valorizando, o que ajuda no controle da inflação. E os preços das commodities. Alguns estão subindo, sim, mas nenhum disparou."
Gustav Penna Gorski, economista-chefe do Banco Geração Futuro, avalia que, apesar do reaquecimento, ainda há muita capacidade ociosa na indústria segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o uso da capacidade instalada subiu para 81,9% em setembro, abaixo dos 85,4% de igual período de 2008. Ele prevê juro estável até o início de 2011.
A consultoria Rosenberg & Associados faz a mesma projeção. "Bens duráveis que perderão incentivos fiscais, como carros e eletrodomésticos, ficarão mais caros. Produtos de vestuário e materiais de construção também. Mas, mesmo assim, o IPCA deve fechar 2010 em 4,6%. Só será problema em 2011, quando deve passar de 5%."



