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Bioenergia

O ex-Greenpeace que agora é nuclear

Em fórum sobre energias renováveis, co-fundador da organização ambiental mais famosa do mundo defende usinas atômicas e critica aposta nas fontes eólica e solar

“Os ambientalistas se opõem a todas as formas realistas de substituir os combustíveis fósseis. Uma hora eu cansei de ser contra as coisas, queria encontrar soluções, queria ser a favor de algo.”Patrick Moore, co-fundador e ex-membro do Greenpeace, diretor da consultoria Greenspirit Strategies e membro da Coalizão pela Energia Limpa e Segura, aliança mantida pela indústria nuclear norte-americana. | Divulgação
“Os ambientalistas se opõem a todas as formas realistas de substituir os combustíveis fósseis. Uma hora eu cansei de ser contra as coisas, queria encontrar soluções, queria ser a favor de algo.”Patrick Moore, co-fundador e ex-membro do Greenpeace, diretor da consultoria Greenspirit Strategies e membro da Coalizão pela Energia Limpa e Segura, aliança mantida pela indústria nuclear norte-americana. (Foto: Divulgação)

O doutor em Ecologia Patrick Moore deu uma espécie de refresco aos participantes do segundo dia da Eco Power Conference, fórum internacional de energias renováveis e sustentabilidade, em Florianópolis. Falando para uma platéia de aproximadamente 200 pessoas – muitas delas habituadas a longos e entusiasmados discursos sobre os méritos da geração de eletricidade a partir dos ventos e da luz solar –, Moore demorou poucos minutos para mostrar que sua apresentação passaria longe do senso comum. Co-fundador do Greenpeace, nos anos 70, o canadense defendeu, como forma de reduzir as emissões de gás carbônico, um programa agressivo de geração de energia nuclear e o reforço do uso de hidrelétricas.

Nessa toada, Moore fez várias referências ao Brasil. Recentemente, o governo anunciou a retomada de Angra 3, e pretende erguer outras quatro centrais nucleares até 2030. Além disso, mais de 70% da potência do sistema elétrico brasileiro vem de hidrelétricas. "O Brasil tem uma das menores emissões de gás carbônico per capita do mundo, porque é proporcionalmente o maior consumidor de biocombustíveis, tem um grande parque hidrelétrico e usa energia nuclear", disse. Aos 61 anos, o ex-ativista ambiental dirige a consultoria Greenspirit Strategies e, ironicamente, integra a Coalizão pela Energia Limpa e Segura – uma aliança mantida pela indústria nuclear norte-americana.

De início, Moore mostrou fotos de três décadas atrás, nas quais, de cabelos longos e visual hippie, aparece protestando contra testes nucleares no Alasca e abraçando uma foca morta por caçadores. Mas, na seqüência de sua palestra, passou a contestar os estudos que culpam o homem pelo aquecimento global – para Moore, o fenômeno é mais um entre tantos ciclos de aquecimento e resfriamento ocorridos no planeta ao longo do último bilhão de anos. O canadense também acusou o ex-vice-presidente norte-americano Al Gore, autor do documentário Uma verdade inconveniente, de "sugerir que ignoremos a ciência e façamos apenas o que ele diz". E argumentou que, se o homem realmente for o causador do aquecimento global e quiser reduzir as emissões de CO2, não terá sucesso "desperdiçando dinheiro" nas chamadas fazendas de vento ou com painéis solares.

"Vira-casaca"

"Os ambientalistas se opõem a todas as formas realistas de substituir os combustíveis fósseis. Uma hora eu cansei de ser contra as coisas, queria encontrar soluções, queria ser a favor de algo", disse o consultor, ao explicar por que deixou o Greenpeace, em 1986. Segundo ele, as hidrelétricas (que hoje respondem por 20% da oferta mundial de eletricidade) e as centrais nucleares (16%) seriam as únicas opções capazes de substituir a atual demanda por petróleo, carvão mineral e gás natural – que, apenas como combustíveis de usinas termelétricas, seriam responsáveis por 30% das emissões globais de CO2. Para o consultor, além de dispendiosas, as tecnologias solar e eólica seriam instáveis, por funcionarem apenas quando está fazendo sol ou ventando.

Moore disse defender as usinas nucleares porque elas não liberam gás carbônico em sua operação e que, mesmo considerando todas as etapas do ciclo de produção de energia, a fonte atômica é a que menos polui. Para contestar as principais críticas à fonte atômica – o risco de acidentes e atos terroristas –, Moore argumentou que "não se pode descartar o uso benéfico de uma opção por conta de seus possíveis perigos" e que, à exceção da catastrófica Chernobyl e de algumas remanescentes da ex-União Soviética, "uma usina nuclear é um dos lugares mais seguros do mundo".

Causou burburinho e foi o palestrante mais comentado do dia. Em certos casos, provocou indignação – como quando disse não ver problema em "transformar um vale no lago de uma hidrelétrica, desde que cumpridos os estudos ambientais". A consultora ambiental Christianne Coelho, pesquisadora em sustentabilidade da Universidade Federal de Santa Catarina, disse ter ficado emocionada ao ver as fotos de Moore e, depois, estarrecida com as declarações dele. "Defender uma hidrelétrica não é apenas matar uma foca. É destruir uma gigantesca biodiversidade, é impedir a vida de uma região de se propagar por uma eternidade."

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