Curitiba Quando a empresa onde Paulo Henrique de Almeida trabalhava há dez anos decidiu se fundir com outra, ele já esperava o pior. Não deu outra. A gerência foi transferida para São Paulo e ele perdeu o emprego como coordenador. "Ninguém gosta de ser demitido, mas como eu já tinha certeza, estava um pouco preparado", diz.
Almeida provavelmente sentiu o que todos os que são demitidos sentem. Uma pesquisa realizada pela ONG Instituto Amigos do Emprego, entre janeiro e agosto deste ano, mostra quais são os sentimentos mais recorrentes entre quem perde o emprego. A conclusão é de que culpa, rejeição, injustiça, medo e ansiedade são os que mais os afligem. O resultado foi divulgado no fim de outubro.
Foram ouvidos 1.883 profissionais que estavam em processo de recolocação após serem demitidos, em sua maioria, de grandes empresas em processos de reestruturação. Entre os entrevistados, 76% revelaram se sentir culpados e que mudariam algo se pudessem voltar no tempo. Eles acreditam que têm uma parcela de culpa na demissão, mesmo quando o processo foi em massa ou resultado de uma reestruturação da empresa.
A pesquisa mostra também que 60% dos entrevistados sentem-se rejeitados, principalmente durante o processo de recolocação, quando não são escolhidos após várias entrevistas. O sentimento de injustiça atinge 71% dos profissionais consultados, tanto pela empresa que demitiu, quanto pelo mercado em geral. Eles acham que não mereciam ser demitidos.
Ainda segundo o levantamento, a maioria dos entrevistados, ou 95%, sente medo de não se recolocar rapidamente no mercado e ainda sofre grande ansiedade, à espera de que o processo aconteça o mais rápido possível.
Para Gilberto Guimarães, presidente da ONG, a conclusão é de que as empresas devem apoiar os funcionários na hora da demissão para evitar toda essa aflição. "Emprego é muito mais do que sobrevivência: é individualidade, que se perde na hora da demissão. As empresas têm que se conscientizar que atrás dos números existe uma pessoa", opina.
É justamente neste aspecto que Paulo de Almeida reclama. "Eu não gostei da maneira como fui demitido. Veio um cara arrogante de São Paulo que ficou me fiscalizando na hora de arrumar a mesa. Parecia que eu ia roubar a empresa. Nem pude me despedir dos colegas", reclama. "Além disso a diretoria em momento algum informou o que estava acontecendo."
Etapas
Guimarães, engenheiro por formação, mas estudioso da psicanálise, explica o processo usual de formação do sentimento de culpa.
"No primeiro momento pensamos que não aconteceu. Depois, vem a negação. Então chega a ansiedade: perguntamos a nós mesmos o que vou fazer agora?." O próximo passo, diz ele, é a raiva. "E esse sentimento é projetado para dentro, virando culpa. Depois vem a aceitação e, por último, a solução".
De acordo com o pesquisador, muitas pessoas ficam presas nos sentimentos de raiva ou culpa e não conseguem encontrar outro emprego por causa disso.
Para enfrentar esse desafio, ele recomenda um planejamento de vida. "O problema não é sentir culpa, mas não saber sair disso. Quem faz melhor isso é quem tem um projeto de vida, um destino. Eles perdem o emprego, mas não o projeto", orienta.
Além do preparo individual, Guimarães acredita que as empresas devem proporcionar um desligamento mais humano e auxiliar os funcionários na hora da recolocação.
"Profissionais apoiados por programas de outplacement conseguem se recolocar em prazos muito mais curtos, em média em um quarto do tempo que levam os profissionais sem este apoio. Na Europa isso é lei", justifica.
Segundo o presidente do Instituto Amigos do Emprego, algumas empresas no Brasil já fazem esse tipo de auxílio.
Quem já passou por essa dura fase também dá as dicas. "O conselho é manter a calma. É difícil, mas se você não persistir acaba se desviando e até caindo em uma depressão ou algo do tipo", diz Paulo de Almeida, que ainda está buscando uma nova colocação no mercado.
Ao mesmo tempo, ele tenta se manter ocupado, fazendo cursos, o que ele acha "imprescindível" para não desanimar.



