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Conjuntura

O sonho distante do “investment grade”

Pelos menos dois anos separam o Brasil do chamado "investment grade", ou grau de investimento. Nas apostas de economistas e analistas, antes de 2009 dificilmente o país conseguirá reunir as condições necessárias para entrar na classificação internacional para investimentos considerados seguros. A percepção geral é de que o Brasil até caminha nesse sentido, mas em passos lentos e carentes de ajustes. O principal deles é o controle da dívida pública. O ajuste fiscal – e como conseqüência a redução da relação entre a dívida e o Produto Interno Bruto (PIB) do país – é apontado pelas próprias agências de classificação de risco como a principal lição de casa que cabe ao governo brasileiro, caso queira ver o país bem classificado.

O grau é uma espécie de selo de qualidade dos papéis de uma empresa ou de um país. Teoricamente, aqueles definidos como "AAA" (mais alto grau) têm mais capacidade de pagar pelos títulos emitidos e oferecem menor risco ao investidor. Na prática, eles atraem investimentos para o país, principalmente por meio do mercado financeiro, e a captação de recursos por empresas brasileiras no exterior fica mais barata (leia mais ao lado).

Pelas três agências internacionais de rating de maior credibilidade no mundo – Standard & Poor’s, Fitch e Moody’s – o Brasil tem qualificação BB, BB e BA3 (para moeda estrangeira), respectivamente. Isso o coloca no chamado "grau especulativo".Perspectiva

Em novembro, a Standard & Poor’s adotou a perspectiva "positiva" para o rating brasileiro. O que não significa necessariamente uma elevação em curto prazo. Segundo a própria agência, em média, apenas 60% dos países nessa situação têm o grau elevado. "Não há como prever em quanto tempo o Brasil vai atingir o grau de investimento. Isso depende dos compromissos e das prioridades do governo", diz a diretora de risco soberano da agência, Lisa Schineller.

Segundo a diretora, a perspectiva reflete a impressão da agência da continuação do que chama de "política prudente" adotada pelo país no sentido de diminuir e melhorar a composição da sua dívida pública. "O Brasil teve uma melhora impressionante no que diz respeito à vulnerabilidade externa. Na área fiscal, houve uma melhora, mas em menor escala."

Em 2006, o país tinha uma relação entre dívida interna líquida e PIB da ordem de 49%. A dívida bruta excede os 70% – taxa muito alta se comparada à de outros países que recentemente conquistaram o grau de investimento. México e Rússia, por exemplo, têm índices de 22,6% e 14,9%, respectivamente. Na América Latina, o Chile é o exemplo mais expressivo: a relação entre sua dívida pública e seu PIB era de apenas 7,5% em 2005 e cai para 5,4% no ano passado. "Os países classificados com BBB têm, em média, 30% do PIB comprometido pela dívida", diz Lisa. "O Brasil não precisa necessariamente chegar nesse porcentual, mas precisamos constatar que há uma tendência de queda para o futuro.

A diretora lembra que, após 1998, o Brasil provocou um certo ajuste fiscal por meio da cobrança de mais impostos. "Por isso agora o peso da carga tributária é muito alto, o que é negativo para o investidor", diz Lisa. "Se houver uma racionalização das despesas, o país pode abrir espaço para uma queda tributária, o que implica mais crescimento também."

Longo prazo

Em relatório divulgado nesta semana, a Fitch Rating confirma que dificilmente o Brasil conseguirá obter o grau de investimento ao longo desse ano e que "não se espera mudança no curto prazo". Segundo o documento, o maior entrave para o país é o "pesado endividamento público". Apesar de a maioria da dívida ser doméstica e em reais, a agência destaca que um terço dela é de curto prazo – e precisa ser renovada todo ano – e boa parte dos títulos está atrelada a juros pós-fixados ou a índices de inflação.

A Fitch cita ainda o crescimento mais lento da economia brasileira em relação aos demais países da América Latina como um limitador para a redução da relação dívida/PIB. "O país poderia impulsionar o crescimento se reformas estruturais fossem aprovadas." Nelas se incluem a redução da carga tributária, reforma trabalhista e melhora nos marcos regulatórios.

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