
Oferta alta de imóveis residenciais para alugar e demanda insuficiente estão levando o inquilino a uma posição inédita: é dele, hoje, o poder de negociação. A situação ocorre em muitas capitais do Brasil, e em Curitiba não é diferente. Há dois anos, havia 3,5 mil unidades residenciais à disposição para alugar na cidade. Hoje, são 7 mil imóveis vazios esperando por locatários.
O resultado desse cenário é a queda de preços. A redução no valor do aluguel residencial vinha ocorrendo há pelo menos três meses. Não era detectada nos anúncios, mas se concretizava dentro das administradoras, no fechamento das locações. Agora a tendência aparece nas pesquisas de mercado. Os dados mais recentes do Instituto Paranaense de Pesquisa e Desenvolvimento do Mercado Imobiliário e Condominial (Inpespar) apontam para uma queda média de 0,13% nos valores de locações residenciais em agosto. O índice é baixo, mas reflete a realidade: candidatos a inquilinos perceberam que a oferta está grande e variada, e passaram a barganhar.
Bem informado
O balcão das administradoras é termômetro do mercado. Dâmares Ratier de Moraes, diretora administrativa de locações da Apolar, afirma que a imobiliária percebeu rapidamente a mudança de comportamento dos inquilinos. "Ele já chega bem informado e pronto para negociar: pesquisou preços, sabe o valor do condomínio, viu outros imóveis parecidos na vizinhança e até conversou com o porteiro", conta. "A situação do candidato à locação, hoje, é mais tranquila do que a do proprietário", ressalta.
A situação acontece também com locatários que já ocupam imóveis. No momento de renovação de contrato, muitos conseguem manter o valor ou até mesmo obter redução real. A vantagem para o proprietário, nesses casos, é manter o imóvel ocupado.
Moradora de um apartamento com dois quartos no Alto da XV, Gislaine Gomes Bueno tomou um susto no ano passado, na época de renovação: de R$ 800,00, passaria a pagar quase R$ 1 mil pelo aluguel. "Eu não tinha como pagar esse preço mas não queria me incomodar procurando outro apartamento e ter de gastar com mudança", conta a jornalista, que havia deixado um emprego para atuar em produção de conteúdo para redes sociais.
Pesou a favor de Gislaine o perfil de boa inquilina, com pagamentos em dia e nenhuma reclamação do condomínio. Ela conseguiu ficar no imóvel por R$ 710,00 mensais (para pagamento pontual). Com o contrato para vencer em outubro, Gislaine espera repetir a experiência, pois pretende continuar no apartamento. "Vou barganhar de novo."
A favor
Nesse ponto, as imobiliárias costumam tomar partido do locatário, pois imóvel vazio é sinônimo de prejuízo. As administradoras alertam os proprietários de que, ao perder o inquilino, além arcar com taxas como condomínio, luz e IPTU, ele terá que colocar a casa ou apartamento para competir com muitos outros. Diante da oferta alta, o fechamento de negócios está mais lento.
Proprietários em busca do equilíbrio
Um proprietário de dois apartamentos de três quartos, entregues em 2012, conta que um deles permaneceu anunciado seis meses até ser alugado. O outro demorou um ano mas o locador, que pediu para não ser identificado, precisou baixar o preço. O valor inicial era R$ 2,5 mil por mês, mas o primeiro imóvel foi alugado por R$ 2,2 mil e o segundo por R$ 1,6 mil.
Dâmares Ratier de Moraes, da Apolar, afirma que o excesso de oferta era previsto e a equipe se preparou para isso. "Fazemos um trabalho constante, aconselhando o proprietário a fazer melhorias no imóvel e aceitar negociações. A maioria está consciente da situação", analisa.
Mobilidade
Luiz Valdir Nardelli, vice-presidente de Locação do Secovi-PR, o sindicato paranaense das imobiliárias, lembra que a locação tem suas vantagens sobre a compra de imóvel. A principal é a mobilidade. "Com um mercado de trabalho dinâmico, em que muitos profissionais mudam com mais frequência de bairro ou cidade, alugar é uma ótima alternativa", observa.
Nardelli afirma que o momento é de ajuste entre preço e oferta e garante que mercado voltará a se equilibrar em 2 ou 3 anos. O consultor financeiro Raphael Cordeiro calcula um período de 2 a 4 anos para acomodação e lembra que o imóvel, por ser patrimônio, não deixa de ser um bom investimento. "A economia é dinâmica. Há dez anos imóvel era o patinho feio do mercado, o bom era aplicar em ações. Cada investimento tem seus altos e baixos", conclui.




