É bem possível que a economia brasileira sofra neste ano sua primeira retração desde 1992 e a sexta em três décadas. Mas, graças aos ajustes macroeconômicos dos últimos anos e ao fortalecimento do mercado interno, desta vez o tombo tende a ser menos traumático tanto que a atividade econômica já emite discretos sinais de recuperação. A avaliação é dos economistas Marcelo Salomon, do Itaú Unibanco, e José Guilherme Vieira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Na próxima terça-feira, em Curitiba, eles abrem o quinto ano do Papo de Mercado, ciclo de debates promovido pelo caderno de Economia da Gazeta do Povo com o patrocínio de Amil e MGM Operadora Turística.
O tema do encontro, mediado pelo jornalista Franco Iacomini, colunista de Finanças Pessoais da Gazeta, será "Perspectiva econômica: o Brasil em direção à retomada". "O PIB [Produto Interno Bruto] deve cair 1,6% neste ano. Só não cai mais por causa da sustentação da massa salarial e da queda na taxa de juros, que deve permitir uma retomada forte no segundo semestre", prevê Salomon. "Temos um mercado interno relativamente forte e não dependemos tanto do comércio internacional, o que limita a contaminação do Brasil pela crise", argumenta Vieira.
No entanto, os dois ponderam que, passada a crise, o país não alcançará o chamado "crescimento sustentado" enquanto não implementar uma agenda positiva, com reformas ambiciosas algo que o governo não parece disposto a fazer. Uma expansão sustentada só ocorre quando o consumo pode crescer por longos períodos sem fazer disparar a inflação. Mas, no Brasil, o aquecimento da demanda esbarrou quase sempre na falta de capacidade de produção, em gargalos logísticos e até na escassez de mão de obra qualificada.
"Para crescer mais rápido e por mais tempo sem gerar inflação, é preciso mais investimento público e privado, atrair capital estrangeiro, criar instrumentos de financiamento de longo prazo. E é fundamental investir no chamado capital humano. Em 2008, ficou visível a falta de mão de obra capacitada em vários setores", diz Salomon. "Precisamos de reformas tributária e previdenciária, de mais eficiência nos gastos públicos. Mas tudo isso depende de decisões políticas, que serão tomadas por bem, enquanto é tempo, ou por mal, quando o sistema entrar em colapso."
Vieira lembra que medidas pontuais, como a redução do IPI para veículos e eletrodomésticos, já provocaram "reação impressionante" nas vendas. "Imagine então o que ocorreria com uma reforma que desonerasse definitivamente a produção e a folha de pagamento. Mas, infelizmente, ainda não vejo qualquer força ou disposição política para resolver esses entraves."




