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Globalização

Para crescer em um mundo sem nações

Quem pensa que a globalização já atingiu o seu limite precisa conhecer o pensamento do japonês Kenichi Ohmae. Famoso por suas idéias radicais quanto à internacionalização econômica, Ohmae imagina um futuro em que muitas teorias econômicas perdem a validade simplesmente por terem sido concebidas em um ambiente dominado por uma variável obsoleta: as fronteiras nacionais. Seu último livro, o recém-lançado "The Next Global Stage" ("A próxima fase global"), ainda sem tradução para o português, descreve esse surpreendente mundo e aponta uma região formada pelos estados de São Paulo e Paraná como uma das dez áreas do mundo capazes de atrair maciços investimentos internacionais.

Citado há décadas pela respeitada revista inglesa The Economist, Ohmae expõe em seu último trabalho argumentos que indicam que economias baseadas em nações têm os dias contados e darão espaço para as "regiões-estado". Um dos exemplos históricos usados pelo autor para explicar por que o conceito de nação pode acabar com o desenvolvimento está na África, onde as fronteiras foram desenhadas pelos europeus. Além das consequências políticas desastrosas dessa divisão, com guerras civis em diversos países, a economia ali, segundo Ohmae, não teve chances de se desenvolver. Até a privilegiada região do Delta do Níger ficou estagnada por estar entre dois países, Nigéria e Camarões.

Para Ohmae, os pré-requisitos para que uma região desperte o interesse dos grandes investidores são: população considerável para que o mercado interno seja interessante às multinacionais; ao menos um aeroporto internacional e um porto grande, ambos capazes de suportar movimento internacional; boa infra-estrutura de transporte; boas universidades e facilidades para pesquisa; e o ingrediente mais importante: estar aberta para o mundo. São características que, para Ohmae, estão presentes no eixo Paraná-São Paulo.

Para o professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), José Henrique Faria, especialista em administração e relações do trabalho, Paraná e São Paulo, de fato, podem atrair grandes investimentos. "Basta olharmos para as montadoras. A região metropolitana de Curitiba abriga hoje uma produção maior do que Detroit em seu auge". Mas Faria lembra que a região precisa tomar cuidado para não ter o mesmo destino de Detroit. "A cidade foi arrasada pela saída das empresas. A economia toda saiu de lá e migrou para os emergentes", completa. Segundo Faria, o que poderia espantar os investidores no Brasil é a política econômica de juros altos, com pouco investimento público e câmbio desfavorável aos exportadores.

O otimismo de Ohmae não é compartilhado pelo economista Ciro Biderman, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. Biderman diz não acreditar que o Brasil, ou uma região específica como São Paulo e Paraná, possa ampliar a sua capacidade atual de atrair investimentos. "Nós dependemos muito da política econômica do governo, e não vejo um projeto claro para o país", diz. Para ele, os números mostram que Índia e China ainda são destinos mais interessantes. "O que pode atrair as empresas de fora é a mão-de-obra qualificada que temos no Brasil", avalia.

O professor Fernando Ribeiro, do Núcleo de Estudos de Negócios Internacionais da Universidade Mackenzie, é ainda mais crítico em relação às "profecias" de Ohmae. "As condicionantes para que um país atraia investimentos já foram definidas há décadas pelos economistas. Por isso, me parecem oportunistas as afirmações de Ohmae. Os argumentos que usa são óbvios", diz o professor. "De cada US$ 100 investidos no Brasil por multinacionais, 90 estão no Sudeste. Ele diz o que todo mundo já sabe".

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