Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Tecnologia

Pirataria desafia livros digitais

Mercado editorial pode repetir o que correu com as indústrias da música e do cinema, que perderam receita com a popularização das cópias ilegais e da troca de arquivos

A dentista e consultora em tecnologia móvel Beatriz Kunze armazena mais de 300 obras nos dois aparelhos que possui, um Kindle e um Positivo Alfa. | Albari Rosa/ Gazeta do Povo
A dentista e consultora em tecnologia móvel Beatriz Kunze armazena mais de 300 obras nos dois aparelhos que possui, um Kindle e um Positivo Alfa. (Foto: Albari Rosa/ Gazeta do Povo)

Ao mesmo tempo em que iça suas velas rumo ao tesouro representado pelos livros digitais, o mercado editorial pode estar também navegando rumo a um maremoto que já sugou a indústria do disco e do cinema. A pirataria se tornou um risco inerente ao comércio de produtos culturais em formato digital, e a aventura está apenas começando para a setor livreiro.

Experiências anteriores, como as ocorridas nas indústrias fonográfica e cinematográfica, mostraram que a convergência no formato digital está diretamente relacionada a crises por perda de receita. O furo nos bolsos é provocado não somente pela venda de cópias ilegais em mídias gravadas, mas também (e cada vez mais) pela troca de arquivos feitas pela internet.

É um risco que as livrarias ainda não são capazes de precisar. Para as redes varejistas, os danos causados pela pirataria já acompanham o setor desde que as cópias xerox se disseminaram em universidades. Porém, a fotocópia ainda tem um custo marginal, além de ser um processo lento. Esse tipo de entrave desaparece com a digitalização, que permite ao usuário descarregar em seu leitor eletrônico centenas de obras em alguns minutos. "A pirataria não é uma exclusividade do setor cultural. Hoje, atinge até a indústria automobilística, e é muito difícil coibir. Não adianta usar um código de autoração complexo, pois não vai vender", afirma Sergio Herz, diretor de operações da Livraria Cultura.

Para evitar que o download de livros se torne uma terra de ninguém, Herz acredita contar apenas com o posicionamento do consumidor em relação ao desvio ético representado pela pirataria. "É uma questão a ser tratada com investimento em educação e não em tecnologias de segurança. A pessoa que lê, acho, é mais consciente das coisas. Não sei se a pirataria de livros vai atingir níveis semelhantes ao de CDs e filmes", expõe. Segundo estimativa da Associação Brasileira de Empresas de Software (Abes), para cada CD ou DVD vendido legalmente no país, outros cinco piratas entram em circulação.

Leoni Cristina Pedri, diretora de varejo das Livrarias Curitiba, avalia que o comércio livreiro ainda tateia à procura do melhor modelo de negócio para os similares virtuais. "A demora em iniciar a ampla comercialização é, justamente, o medo da pirataria. Mas, acima de tudo, acreditamos que a nossa vocação é comercializar livros, seja qual for o formato que o cliente desejar", ressalta.

Crescimento

Em julho, a loja virtual norte-americana Amazon surpreendeu o mercado editorial ao divulgar que, no segundo trimestre deste ano, a venda de livros digitais superou a de livros em papel. Para cada 100 obras em formato tradicional, outras 143 são vendidas em versões para o leitor eletrônico Kindle.

No Brasil, este mercado ainda engatinha. A Livraria Cultura foi uma das primeiras no Brasil a iniciar as operações de vendas de livros digitais. Desde abril deste ano, o site da livraria oferece 120 mil títulos em formato digital, mas apenas 1% é em português. Na avaliação dos livreiros, a demanda brasileira – ainda incipiente – deve aumentar consideravelmente com a chegada dos leitores eletrônicos ao mercado nacional. O iPad, da Apple, deve chegar ao mercado brasileiro até o fim do ano. "É cedo para falar em números, mas atualmente temos um crescimento de 30% a 40% ao mês na venda de livros digitais. No Brasil, existe uma demanda reprimida por leitura a ser explorada", avalia Herz.

Na vanguarda

A dentista curitibana Beatriz Kun­ze, que também é consultora em tec­­nologia móvel, possui dois leitores eletrônicos: um Kindle e um Positivo Alfa, nos quais armazena cerca de 300 obras. Ela avalia que, por causa da praticidade e do estímulo tecnológico, passou a ler com mais frequência. "Deixo o apa­­relho na bolsa e, sempre que dá tempo, ligo e leio um pouco", conta.

Entretanto, Beatriz também encontrou desvantagens na leitura virtual: "Os livros técnicos, quando tem muitos gráficos, se tornam difíceis de ler porque a tela é pequena. Por isso, quero também comprar um iPad, que não tem este problema", almeja.

O economista José Pio Martins, reitor da Universidade Positivo, encontrou também nos leitores digitais uma forma de ter acesso mais fácil a obras não publicadas no Brasil. "A Amazon tem um catálogo de livros de negócios imenso. Você não consegue nem ler a lista completa", relata.

Pio Martins avalia que as condições de leitura e o conforto para os olhos, em um Kindle, é semelhante ao do papel impresso. "O que se perde é a referência de se ter duas páginas diante de seus olhos", pondera.

Para Leoni Pedri, das Livrarias Curitiba, a disseminação dos livros digitais vai propiciar a amplificação do mercado consumidor. Como o preço da versão eletrônica de uma obra custa entre 25% a 75% menos que a edição em papel, somado à atratividade causada pela novidade tecnológica, as obras tendem a ter alcance maior entre os consumidores.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.