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Liberdade de expressão

Política de restrição de tweets causa polêmica

Ativistas que usam a ferramenta em países com governos autoritários se dizem decepcionados com decisão do Twitter de remover conteúdo caso solicitado pela Justiça dos locais em que atua

Frequentador de um café em Riad usa o Twitter:Árabia Saudita ameaça executar jornalista que tuítou sobre o profeta Maomé | Fayez Nureldine/AFP
Frequentador de um café em Riad usa o Twitter:Árabia Saudita ameaça executar jornalista que tuítou sobre o profeta Maomé (Foto: Fayez Nureldine/AFP)

O anúncio causou até ameaça de boicote. O Twitter se encheu de protestos contra ele mesmo. Ativistas como o egípcio Mah­­moud Salem, que concorreu às eleições parlamentares em seu país, e a cubana Yoani Sánchez se disseram desapontados. Mark Gibbs, colunista da revista Forbes, falou em "suicídio social".

O pronunciamento em questão, feito há pouco mais de uma semana no blog oficial da empresa, anuncia que, ao receber uma ordem de remoção de conteúdo, o Twitter conseguirá, a partir de agora, bloquear o acesso ao tweet apenas no país onde tal ordem foi emitida, deixando-o visível no resto do mundo. Até agora, para cumprir uma ordem dessas - que pode ser feita por governos ou entidades de proteção a direitos autorais, por exemplo - o tweet (ou o perfil do usuário) era apagado definitivamente de todo o sistema. O texto deixa claro que a censura é "reativa", ou seja, o Twitter não monitora nem apaga conteúdo por si, só quando alguém pede.

A revolta contra a rede social se deu por conta da declaração de que a empresa efetivamente censura tweets quando requisitada. No entanto, motivo de maior preocupação está em outro trecho do anúncio: "Iremos reter um conteúdo específico apenas em resposta ao que considerarmos ser um pedido legal válido e aplicável". O que é legal, válido ou aplicável? Incon­­táveis interpretações são possíveis.

Olivier Basille, diretor da Repórteres Sem Fronteira, afirma em carta aberta enviada ao presidente do Twitter, Jack Dorsey, que a explicação é muito vaga e "deixa a porta aberta para todos os tipos de abuso". O anúncio do Twitter não diz se apenas mandados judiciais serão acatados e se as ordens serão cumpridas só nos países onde a empresa mantém capital e funcionários.

Na prática, afirma Jillian York, diretora da área de liberdade de expressão internacional da Eletronic Frontier Foundation (EFF), o Twitter só é obrigado a cumprir um pedido judicial para a remoção de conteúdo onde ele mantém escritório e funciona como empresa, onde ele está sujeito às leis locais e às punições legais – a saber, EUA, Reino Unido, Irlanda, Japão e, em breve, Alemanha.

Conteúdo pró-nazista

Quando abrir sua sede na Alemanha, onde a publicação de conteúdo pró-nazista é proibida, o Twitter terá de cumprir ordens para a retirada de conteúdos que violem as leis locais, sob pena de multas, congelamento de bens e prisão de funcionários.

Já para uma ordem do governo egípcio, por exemplo, "eles não são obrigados a responder", diz Jillian em entrevista para a reportagem. Quando um pedido chega ao Twitter, há duas coisas que ele pode fazer: não aceitar e correr o risco de ser bloqueado pelo governo em questão – como acontece no Irã e na China – ou acatar, ocultar o tweet e tomar providências para que fique claro para os usuários que a censura ocorreu, avalia Jillian.

O anúncio também trata da ampliação da parceria com o Chilling Effects, projeto da EFF que mantém um banco público de notificações de pedido de retirada de conteúdo online. Há mais de um ano, o Twitter publica ali os pedidos relativos a violação de direitos autorais para o Chilling Effects. Agora, mandará todos eles. O Twitter também diz que tentará deixar claro que um conteúdo foi ocultado e que o usuário publicador será avisado da remoção e do motivo.

Em entrevista ao site All Things Digital, Dick Costolo, CEO do Twitter, foi questionado por que a empresa simplesmente não atua fora da lei, descumprindo os pedidos de censura? Esquivo, Costolo reafirmou que eles nunca censuram ativamente, apenas cumprem ordens legais válidas e aplicáveis dentro dos países onde operam.

A polêmica envolvendo a plataforma, usada em massa no ano passado para a articulação de ativistas sociais e dissidentes políticos, chama atenção para um impasse que outras empresas de internet também enfrentam: como conciliar expansão global com diferentes leis locais que, muitas vezes, não asseguram a liberdade de expressão?

A restrição de conteúdo com base no IP do usuário (é ele que diz ao sistema onde cada usuário está) e a tentativa de criar um sistema mais transparente foi a resposta do Twitter a isso. Enquanto uns consideram que, no geral, a decisão é po­­sitiva para a liberdade de expressão no mundo, outros acreditam que restringir mensagens justamente onde seu conteúdo é proibido é se alinhar aos censores e contribuir para o desrespeito ao direito humano da liberdade de expressão.

Mas sempre dá-se um jeito. Já circulam pela internet tutoriais para enganar a restrição do Twitter. É possível usar ferramentas como o navegador Tor para driblar o sistema e acessar tweets visíveis em outros países.

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