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Agosto é mês de seleção para cruzeiros marítimos

Contratados ganham em dólar ou euro e não têm gastos com alimentação e estada. No entanto, jornada pode superar 12 horas diárias e não há descanso semanal

Cynthia Nunes conta que o trabalho em navios é puxado, mas tem suas recompensas, como viagens e novas amizades | Aniele Nascimento/ Gazeta do Povo
Cynthia Nunes conta que o trabalho em navios é puxado, mas tem suas recompensas, como viagens e novas amizades (Foto: Aniele Nascimento/ Gazeta do Povo)

A alta temporada de cruzeiros em águas brasileiras se aproxima e com ela cresce a necessidade de pessoal para trabalhar nos navios. Outubro é o mês em que as embarcações começam a chegar à costa do país e, até lá, a tripulação precisa estar treinada, processo que leva cerca de um mês, segundo agências de seleção. Por isso, é no mês de agosto que surge o maior número de vagas para esse tipo de ocupação. A demanda é ainda maior para os navios que ficam mais de 30 dias no litoral do Brasil – norma do Ministério do Trabalho e Emprego exige que, nesses casos, pelo menos 25% da tripulação seja composta por brasileiros.

Quem embarca para trabalhar permanece por seis a oito meses na equipe de bordo e, dependendo do caso, segue com o navio para águas estrangeiras. Além de conhecer outros países, os tripulantes recebem em dólar ou euro e não arcam com estada e alimentação. Os salários estão na faixa de US$ 1,5 mil, mas as gorjetas elevam este valor para cerca de US$ 2,3 mil. "A grande maioria das pessoas nos procura por isso, juntam US$ 60 mil e saem depois de três anos para começar seu negócio. Alguns fazem carreira e chegam a ganhar US$ 8 mil como gerente", conta Carolina Coelho, diretora da agência ISM Brasil, de Curitiba.

A contrapartida para os benefícios, porém, não é pequena. O agenciamento é gratuito – as companhias pagam uma comissão por contratado. Mas, uma vez a bordo, trabalha-se de segunda a segunda e só se folga em um turno. A jornada diária é de 12 horas na média. Em dias de embarque, ela pode chegar a 18 horas. Quem faz o alerta é Sheila Dias, diretora executiva da Infinity, de Santos. "São 3 mil pessoas embarcando e outras 3 mil desembarcando, então o trabalho é muito grande, especialmente para as camareiras", explica. "O trabalho é exaustivo, há pessoas que não gostam. Mas a desistência é pequena e também tem muita gente que volta. Nós alertamos sobre as dificuldades, mas às vezes há pessoas que vendem [o trabalho] como se fosse um sonho", avalia Fabiana Dorleans, diretora geral da Portside Agency Brasil, outra agência de Curitiba.

Processo seletivo

A partir do perfil requisitado pelas companhias, que varia de acordo com a função, as agências fazem uma pré-seleção e os aprovados passam pelo crivo de um representante da empresa. Ter experiência na função que se vai desempenhar é interessante, mas não imprescindível. Passar pelo processo não é garantia de emprego. No entanto, as diretoras asseguram que a recusa é baixa. "Se acontecer, temos outros cruzeiros para os quais indicar a pessoa. Nós não descansamos enquanto não conseguimos uma vaga para ela", diz Sheila. O tripulante fica sob o regime do contrato de trabalho. Expirado seu prazo, a pessoa geralmente é chamada para uma nova empreitada, depois de dois meses ou mais.

Experiências

Ganhar bem, em dólar, e poder conhecer outros países foi uma perspectiva convincente para o empresário Guilherme Viriato. Ele passou três meses trabalhando em um navio. E só não ficou mais porque a rotina exaustiva o fez desistir. "Estava trabalhando 16 horas por dia. Conseguia dormir cinco horas – não seguidas. Eram três horas à noite e duas horas à tarde", relata. Além disso, por vezes ele não conseguiu folgar. "Existe uma regra de que um terço da tripulação deve ficar no navio, mesmo atracado. Havia uma escala, e às vezes você era obrigado a ficar no navio bem na sua folga. Em outras, você tinha que fazer o treinamento de segurança no horário que deveria ser livre", lembra.

A administradora de empresas Cynthia Nunes também sofreu para se adaptar à rotina. "Para trabalhar tem de ter coragem, porque é puxado. Tem de ser humilde, aceitar ordens. Os chefes são muito rígidos", alerta. No entanto, Cynthia avalia que o saldo da experiência foi positivo. "Conheci países que, de outra forma, provavelmente não conheceria. Fiz muitos amigos de várias nacionalidades e, claro, consegui juntar um bom dinheiro."

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