
Imagine que você é um investidor. Um dia, um homem vem até você e diz: "Eu quero construir uma camada de jogo no topo do mundo". Você não sabe o que é a tal "camada de jogo", e muito menos se ela deve ser construída no topo do mundo. Todavia, esse homem tem um discurso apaixonado sobre um plano de negócios, concebido quando ele era calouro universitário e que pode mudar o planeta tornando-o um local mais divertido, em que pessoas interagem de uma maneira completamente nova com empresas entre si.Se você entregar a ele US$ 750 mil, afirma, você garantirá uma fatia no que ele acredita ser uma empresa que faturará US$ 1 bilhão por ano. Interessado? Antes de responder, leve em conta que tal homem demonstra muitos dos sintomas de uma pessoa que sofre de um mal que os psicólogos chamam de episódio "hipomaníaco". De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, tais sintomas incluem acessos de grandiosidade, um humor elevado e expansivo, pensamentos ágeis e pouca necessidade de dormir.
Para conseguir acompanhar o passo dos próprios pensamentos e manter a conversação em níveis aceitáveis, esse homem corre todas as manhãs até literalmente cair de cansaço. Ele pode trabalhar 96 horas sem parar. Ele planeja viver em seu escritório para poder cair em um saco de dormir quando não aguentar o cansaço. Para ele, tudo o que distrai ou pode distrair seus colegas, mesmo que seja por apenas alguns minutos, é "mau". Ele tem apenas 21 anos.
Então, o que você daria a esse jovem rapaz: um cheque gordo ou o telefone de um bom analista? Se ele for Seth Priebatsch e você for a Highland Capital Partners, uma empresa de investimentos de Lexington, Massachussetts, a resposta é: um cheque gordo.
Esse exercício mental esbarra em uma verdade: existe uma linha muito tênue que separa o temperamento de um empreendedor promissor de uma pessoa que, como dizem na psiquiatria, precisa de ajuda. Acadêmicos e especialistas em contratação dizem que muitos empreendedores de sucesso possuem qualidades e manias que, caso extrapolem suas psiques, podem ser consideradas doenças mentais.
Isso não quer dizer que empreendedores como Seth Priesbatsch sejam loucos. Seria mais preciso dizer que eles têm uma loucura na medida certa. "É tudo uma questão de grau", diz Dr. John D. Gartner, psicólogo e autor de The Hypomanic Edge (O Limiar Hipomaníaco, em tradução livre). "Se você for um maníaco, você pensa que é Jesus. Se você for hipomaníaco, você pensa que é uma dádiva de Deus para os investimentos em tecnologia".
Mania e Produtividade
Os atributos que definem empreendedores grandiosos, de acordo com os especialistas, são comuns em certas manias, apesar de virem em formas mais suaves e constituídas de formas altamente produtivas. Ao invés de ser imprudente, o empreendedor adora riscos. Ao invés de ilusões, o empreendedor imagina um produto que parece tão atraente que inspira pessoas a apostar suas carreiras, ou muito dinheiro, em algo que não existe e pode até não vender.
Dessa forma, os investidores gastam muito tempo avaliando as psiques das pessoas em quem podem vir a investir. Não se trata de separar os malucos dos moderadamente maníacos. Seria algo mais parecido como determinar quais hipomaníacos são arrogantes e insolentes traços comuns a pessoas que sofrem deste mal e quais possuem certo nível de humanidade e habilidades interpessoais, sempre úteis para recrutar talentos e arrecadar dinheiro.
Alguns investidores aplicam testes de personalidade a fim de eliminar os arrogantes e insolentes. Outros enfatizam a tolerância de formas suaves de manias, só por que começar um negócio já é, por si só, algo maluco. "Há 6 bilhões de pessoas no planeta, que já estão por aqui há alguns milhares de anos e que já vivenciaram 200 anos de revolução industrial e ninguém fez o que você quer fazer? É um pouco louco", diz Paul Maeder, sócio da Highland Capital.



