
A maioria de nós pensa que talento é uma habilidade nata da qual temos pouco controle. Entretanto, a cada dia que passa, mais especialistas questionam a ideia de que os genes podem determinar nosso progresso.
"Estamos vivendo um momento muito interessante nessa discussão, em que a nova ciência nos dá uma espécie de raio-X do que dá suporte à velocidade e à fluência das grandes performances. Muito tem a ver com os genes, mas muito mais ainda não está relacionado a eles", diz Daniel Coyle, autor de O Código do Talento.Isso mais parece com os argumentos da natureza versus criação o quanto de nós representa algo nato e o quanto se deve ao meio externo. Todavia, pesquisas científicas apontam que essa relação entre o ambiente e os genes é muito mais intrincada que isso.
K. Anders Ericsson, professor de psicologia na Universidade do Estado da Flórida, é um dos mais renomados pesquisadores nessa área de estudo. Ele passou anos estudando o que faz as pessoas se destacarem no que fazem, quer elas sejam violinistas, atletas ou jogadoras de xadrez.
Em sua pesquisa, Ericsson indica que, aparentemente, há poucas evidências de que o talento está ligado a diferenças genéticas individuais. Uma exceção que ele conseguiu observar foi a altura. É difícil ser um jogador de basquete profissional se você for muito baixo ou um ginasta olímpico se for muito alto.
Ainda de acordo com Ericsson, isso não prova que alguém pode ser grandioso, ou até mesmo muito bom, em uma determinada área qualquer. Antes de tudo, são necessários pais dispostos a investir em uma grande quantia de recursos e tempo para ajudar seus filhos a atingirem a excelência.
Na verdade, a pesquisa mostrou que a maioria das pessoas que se destaca em suas áreas não saiu de qualquer lugar. Musicistas de elite normalmente nasceram em famílias em que a música possui grande importância. O mesmo vale para os esportes ou qualquer outra atividade.
Além disso, ao estudar pessoas que atingiram a excelência, Ericsson descobriu que elas se engajam em algo que ele chama de "treino deliberado". Isso envolve passar horas do dia treinando em estruturas altamente complexas a fim de melhorar seu desempenho e superar fraquezas.
O treino não é necessariamente agradável e requer alguém determinado a treinar por horas durante pelo menos uma década. Mas o professor não se refere a treinar todos os dias, durante o dia inteiro. Quatro horas por dia é o limite para se obter o máximo do esforço. Transcorridas essas quatro horas, a exaustão impede progressos.
"A maioria das pessoas não conseguiria se engajar no treino deliberado nem menos por poucas semanas e essa é uma das maiores razões pela qual a maioria de nós não chega nem aos pés das estrelas de uma determinada área", declara Ericsson.
Nem todo mundo concorda. Dean Simonton, professor de psicologia na Universidade da Califórnia, que também estudou o assunto por muitos anos, argumenta que a "genética influencia a velocidade e o modo como uma pessoa pode dominar a expertise necessária para desempenhar uma atividade acima dos padrões mundiais".
Além disso, o próprio processo de adquirir tal expertise requer disposição e determinação tremendas. Mas de onde vêm tal motivação e energia tão excepcionais? Ela é aprendida ou herdada ou é uma combinação de natureza somada ao ambiente de criação?
De acordo com Simonton, apesar de não herdarmos um gene musical ou literário, por exemplo, nossa receptividade à experiência de tentar aprender a tocar um instrumento é parcialmente atribuída à influência genética.
Então, qual é o objetivo de se comprovar tudo isso? Ver que é terrivelmente difícil nos tornarmos excepcionais em algo? Provavelmente, todos sabem disso. E a verdade é que a maioria de nós jamais será um Picasso ou um Shakespeare.
"Muitos estão longe de seu potencial. A sabedoria popular, pelo menos no último século, prega que o talento é o fator determinante mais importante em uma conquista. Nosso foco no próximo milênio é nos voltarmos para todas as coisas que revelam o talento escondido, incluindo o esforço, a autodisciplina e a confiança", diz Angela Duckworth, professora assistente de psicologia da Universidade da Pensilvânia.
O esforço é chamado por Duckworth de perseverança ou a "capacidade de sustentar o esforço tendo em vista um objetivo muito desafiador que só se alcançará a longo prazo". Os estudos dela mostram que indivíduos mais esforçados são geralmente bem-sucedidos em situações desafiadoras, e que esforço e talento são coisas completamente distintas.
Mas é perigoso para pais pensarem que se o talento for mais maleável do que eles acreditam, eles possam tornar seus filhos em grandes atletas ou artistas. Aqueles entre nós que tentaram sabem que não se pode forçar uma criança a se interessar por algo.
Ou poderíamos provavelmente pressionar nossos filhos para atingirem a excelência em algum campo através de uma criação certamente reprovável trocando todo amor e afeição por conquistas. Conforme visto no livro de memórias do tenista Andre Agassi, tal receita pode resultar em um adulto bem-sucedido, porém infeliz. "Eu quero que meus filhos aspirem à grandeza. Quero que trabalhem duro e tenham a satisfação do sucesso através do esforço, mas não quero que tenham uma vida bi-dimensional."
Com todo esse frisson ao redor do talento, é fácil esquecermos uma coisa. Apesar de adorarmos ver alguém fazer o que faz com maestria, também conhecemos o grande sentimento de realizar uma tarefa difícil. É muito fácil deixarmos a admiração por tais habilidades ofuscarem atributos menos visíveis, como a bondade e a generosidade. Apesar de nos maravilharmos com os feitos de grandes conquistadores, tenho certeza que não gostaria de viver em um mundo cheio deles.
Tradução: Thiago Ferreira



