
Primeira mulher a se tornar vendedora de carros em Curitiba, Izolde Schmidlin Longo, 66 anos, fechou seu primeiro negócio em 1964. Tinha 20 anos e vendeu um Fusca. Na semana passada, depois de mais de 20 mil veículos vendidos, segundo estimativa própria, ela encerrou sua carreira como funcionária da Servopa, revendedora da marca Volkswagen na capital. Foram 46 anos trabalhando na mesma firma e no mesmo local: a Rua Rockefeller, no Rebouças. Não é surpresa, portanto, que ela tenha adotado um novo sobrenome. "Hoje só me conhecem como Izolde da Servopa", conta. "Tenho clientes que mantive durante toda a minha vida profissional. Vendi o carro para o pai, o filho e o neto."A trajetória de Izolde é considerada um "caso em extinção" por especialistas em carreira e recursos humanos. No mercado de trabalho de hoje, a rotatividade não é apenas boa, mas recomendável especialmente para quem está em início de carreira. "Na conjuntura atual, três a quatro anos numa mesma empresa é um belo ciclo", afirma Roberto Picino, diretor da consultoria Michael Page para a Região Sul. Ele lembra, no entanto, que não há fórmula mágica para decidir o momento correto de buscar novas oportunidades de crescimento. "É um dilema frequente entre os profissionais, mas não há o certo e o errado. A estabilidade é sempre algo positivo. Se o profissional cresceu na empresa, melhor ainda. Por outro lado, muitos dizem que muito tempo na empresa pode ser sinônimo de acomodação."PerguntasPicino sugere um exercício. "Há algumas perguntas que o profissional pode tentar responder para tomar a decisão. Por exemplo: Estou contribuindo na medida em que gostaria? Sou valorizado? Recebo incentivos? Faço parte da estratégia? Estou feliz e me identifico com a empresa?"
Essas foram perguntas que o assessor da área de desenvolvimento de fornecedores da Bosch, Vilson Mazzi, já se fez. Neste ano, ele completou 40 anos trabalhando na fábrica de peças para veículos no CIC, em Curitiba. "Comecei no almoxarifado", conta ele. "Nestas quatro décadas, outras oportunidades surgiram, principalmente quando comecei a ter mais contato com a indústria automobilística." Segundo Mazzi, a decisão de permanecer sempre foi pautada na convergência entre os valores pessoais e os da empresa. "Trabalho numa organização focada em resultado, que te dá liberdade para criar e crescer. Além disso, é uma empresa com visão tecnicista muito forte. O produto dela tem de ser o melhor do mercado. Isso bate muito com a minha maneira de pensar."
Lado da empresa
Kassem El Sayed, professor da FAE Centro Universitário, lembra que manter um funcionário por muito tempo também passou a ser um dilema para as empresas, especialmente com a chegada da Geração Y (nascidos após os anos 80) ao mercado. "A nova geração é mais imediatista. "Se não for agora, no máximo é para amanhã. Essas pessoas não se importam o quanto tempo ficarão numa empresa. Elas buscam a satisfação. Se comprometem por um período de tempo, e se não há a conciliação entre a expectativa delas com as oportunidades na empresa, elas vão embora. Quem quer estabilidade em emprego, está fazendo concurso público", afirma o professor.
Sayed diz que para a empresa, manter um profissional por muito tempo também é um jogo de dupla face. "Pode ser bom, porque o profissional carrega a história da empresa, há um vínculo psicológico muito grande. Esse profissional pode passar para a geração que está chegando o espírito da empresa. Da mesma forma, pode representar o sinal de alguém que se acomodou, uma imagem que vai passar para os outros."




