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Relacionamento profissional

Trabalhando em família: como fazer para dar certo?

Ter a mãe, os filhos ou os irmãos como colegas de trabalho pode até ajudar, mas é preciso saber lidar com a situação. Os comportamentos em casa e no ambiente profissional precisam ser bem diferentes

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Londres - Há pessoas que realmente nasceram para trabalhar juntas, e isso não é apenas força de expressão. O encarregado de logística Adam Henderson, 19 anos, se dá muito bem com sua gerente. O jovem começou no emprego em janeiro deste ano e está deliciado com o clima dentro da empresa. "Eu e minha gerente temos um ótimo relacionamento. Ela é justa e sempre tenta conciliar as tarefas com as habilidades de quem irá executá-las. Eu adoro trabalhar com ela." O que Adam esqueceu de comentar é que sua gerente na United Christian Broadcasters Ltda. é ninguém menos que sua própria mãe, Shirley Henderson.

Tal situação parece ser a mais distante da ideal possível. O jovem Henderson, por sua vez, vai além das reuniões: ele trabalha, mora, pega elevador e janta com ela todos os dias. "Quando sua mãe é também sua chefe, você tem de andar no ritmo dela. Isto significa que, se ela quiser chegar antes ou trabalhar extra, você é obrigado a fazer o mesmo", comentou, sorridente, o rapaz.

"Creio que ainda não fiz Adam passar vergonha, mas contei algumas histórias de quando ele era bebê e parece que ele não gostou muito", relatou a mãe, Shirley. "Entretanto, eu sou sempre a ‘mãe’, e esta situação pode às vezes ser crítica, especialmente quando você tem que supervisionar seu filho."

Mas as desvantagens de se trabalhar com membros da família são maiores que a óbvia intimidade. Linda Hardcastle, gerente local de uma loja de artigos artísticos em Halifax, no norte da Inglaterra, gerencia uma equipe de 27 pessoas, dentre as quais está sua filha, Johanna Sutcliffe, a recepcionista da empresa. "Você tende a esperar mais de um membro da família. Eu mesma tenho a tendência de ser mais rígida. Acredito que preciso agir assim para evitar que os outros pensem que estou dando tratamento diferenciado à minha filha", confidenciou Linda.

Mãe e filha possuem um relacionamento excepcional fora do ambiente de trabalho, "de forma que não parece estranho trabalharmos juntas. Estou muito orgulhosa de ver o profissionalismo de Johanna. Ela tem uma ótima atitude para com o trabalho e dá muito valor a isto".

As irmãs Jo e Natalie Walker trabalham juntas para uma cadeia britânica de perfumarias desde 1996. Jo é agora a CEO e Natalie é a gerente de desenvolvimento de vendas e ambas trabalham hoje na matriz localizada na cidade de Buckinghamshire, próxima a Londres. "Pego mais pesado com Natalie porque ela é minha irmã e acho que sempre devo olhar a situação pelo ponto de vista dos outros, não o dela. Entretanto, sei diferenciar as coisas quando ela fala comigo de irmã para irmã e quando somos apenas colegas de trabalho", comentou Jo. Nathalie complementa: "Eu posso ficar mais nervosa com a Jo do que poderia com as minhas colegas, para a sorte delas".

As irmãs reconhecem que existe uma pressão decorrente do fato de trabalharem juntas. "Quando tinha 20 anos, minha gerente disse que eu não era competente para a minha função. Saí do emprego para provar a todos que eu não estava ali por causa da minha irmã. Dois anos depois, eu voltei à perfumaria ciente de todas as minhas habilidades", recorda Nathalie.

Ter alguém no trabalho que nos conheça por completo pode, da mesma forma, agir como um estimulante. "Estou muito orgulhosa ao ver o que minha irmã conseguiu. É ótimo vê-la em ação todos os dias. Ela me inspira", confessou Jo Walker.

Mica May é uma terapeuta e conselheira familiar. Ela ajuda empresas familiares e seus membros a gerenciar suas relações pessoais. "Quando trabalhamos com alguém que nos conhece muito bem, esta pessoa pode prever o que faremos. Ela compreende nossas reações e as explica para as outras pessoas que trabalham neste local", declarou.

Mas, de acordo com May, o que parece ser uma vantagem esconde um grande problema. "A mesma mão que nos afaga no trabalho pode ser aquela que nos enfurece em casa, e isso causa uma enorme confusão na hora de se estabelecer limites para evitar possíveis explosões temperamentais."

Limites claros

Para evitar situações desagradáveis, limites muito claros devem ser estabelecidos – caso existam dificuldades no relacionamento familiar ou conflitos de poder, trabalhar em família é uma atividade perigosa e explosiva. Existe também a questão do personagem que trabalha: o profissional que os colegas de trabalho enxergam e que ninguém na família consegue perceber como tal. "Se os membros da família conseguirem interpretar bem o papel do profissional, será uma surpresa vê-los voltarem ‘ao normal’ após o expediente", relatou May.

Da mesma forma, esta pode ser a chave para se trabalhar em família: "Ser uma pessoa diferente no ambiente de trabalho permite que as pessoas criem uma distinção e saibam se comportar de uma maneira diferente da que teriam no seio familiar, ao mesmo tempo em que evita que assuntos pertinentes ao trabalho sejam discutidos em casa".

Tradução: Thiago Ferreira.

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