Ao todo no semestre, os saques ultrapassaram os depósitos em nada menos que R$ 38,5 bilhões | Daniel Derevecki/Gazeta do Povoi
Ao todo no semestre, os saques ultrapassaram os depósitos em nada menos que R$ 38,5 bilhões| Foto: Daniel Derevecki/Gazeta do Povoi

O brasileiro sacou R$ 6,3 bilhões a mais do que depositou na caderneta de poupança no mês passado. É o pior resultado da aplicação financeira mais popular do país em meses de junho por causa da combinação: queda da renda por causa da inflação, aumento do desemprego e alta dos juros. Os dados foram divulgados pelo Banco Central nesta segunda-feira (6).

Houve mais retiradas do que aportes em todos os seis primeiros meses de 2015. Ao todo no semestre, os saques ultrapassaram os depósitos em nada menos que R$ 38,5 bilhões. Até então, o ano com o pior desempenho da aplicação foi em 2003, quando as retiradas foram R$ 10,4 bilhões maiores que os saques no total dos 12 meses.

Até então, o pior junho para a caderneta havia sido em 1999. Na ocasião, o resultado ficou negativo em R$ 1,4 bilhão. O resultado do primeiro semestre também é significativo, já que há 10 anos, desde 2005, não se via um volume de resgates maior do que o de aplicações em todos os meses da primeira metade de um ano. Em janeiro, o resultado ficou negativo em R$ 5,5 bilhões e, em fevereiro, em R$ 6,3 bilhões.

Em março, os resgates superaram os depósitos em R$ 11,4 bilhões e, em abril, em R$ 5,8 bilhões. Em maio, o saldo ficou no vermelho em R$ 3,2 bilhões. O resultado de março foi, portanto, o pior da série histórica do BC para um mês e o de junho, o terceiro pior, atrás também do de fevereiro.

Resultados cada vez piores são esperados pelos especialistas por vários motivos. As famílias brasileiras estão com renda mais apertada por causa da inflação. Em vários casos, o correntista saca os recursos que estavam depositados para fazer frente às despesas do mês que aumentam com a remarcação de preços. Além disso, o desemprego está em alta e influencia no colchão de recursos feito pelas famílias.

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Selic

No entanto, um outro motivo tem levado a poupança a ter recordes negativos nos últimos meses: o aumento dos juros para conter a inflação. Atualmente, a taxa básica (Selic) é de 13,75% ao ano. Enquanto a caderneta de poupança, a correção é de de 6% ano ano, mais TR (Taxa Referencial).

Por isso, é muito mais vantajoso para o brasileiro investir em renda fixa do que guardar o dinheiro na poupança, mesmo se não for um grande investidor e não tiver acesso às taxas de administração diferenciadas oferecidas aos maiores aplicadores. Isso faz com que várias pessoas deixem a aplicação popular e migrem para os fundos de investimento.

Se deixarem o dinheiro na caderneta de poupança, as famílias perdem. Isso porque os depósitos são corrigidos por uma taxa mais baixa que a inflação, que deve ser maior que 9% neste ano. Enquanto isso, o recurso depositado na caderneta rende cerca de 6% ao ano. É melhor, entretanto, do que deixar escondido debaixo do colchão, quando o impacto da inflação é total.

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Saldo

Atualmente, os brasileiros guardam R$ 646,6 bilhões na poupança. No fim do ano passado, esse número era muito maior: havia R$ 662,7 bilhões. Normalmente, mesmo com saques maiores que os depósitos, o saldo costuma a crescer porque além dos aportes, os rendimentos pagos pelos bancos aos clientes aumentam o volume.

Não foi o que aconteceu em 2015. Mesmo com rendimentos recordes (R$ 22,4 bilhões) no primeiro semestre, o saldo caiu porque os saques foram mais fortes. Superaram os altos rendimentos. Somente em junho, as instituições depositaram R$ 4 bilhões nas cadernetas de poupança dos clientes.

Quanto menos dinheiro depositado na caderneta de poupança, há menos recursos para o financiamento imobiliário já que no Brasil, a lei determina que os bancos usem esses recursos basicamente para emprestar para a compra da casa própria.

No fim de maio, preocupado com a falta desse dinheiro, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou mudanças nas regras para liberar nada menos que R$ 22,5 bilhões para o crédito habitacional. Os ministros mexeram nas normas do chamado depósito compulsório sobre a poupança, uma parte do que os bancos recebem dos depósitos na aplicação mais popular do país que os bancos não podem usar e têm de deixar parada no BC.

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