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Um projeto ambiental de créditos de carbono teria sido usado para inflar artificialmente o patrimônio de fundos ligados ao Banco Master, envolvendo terras públicas da União na Amazônia e valores bilionários sem lastro real no mercado. A estrutura, segundo documentos, tem como investidora a família do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do banco, suspeito de orquestrar um esquema fraudulento com fundos de investimento.
Uma apuração publicada nesta terça (20) pelo jornal Folha de S. Paulo aponta que familiares de Vorcaro participaram desde a origem do plano de explorar créditos de carbono em uma área pública na Amazônia, por meio de uma complexa engenharia financeira com fundos administrados pela Reag, corretora que foi liquidada pelo Banco Central na semana passada e suspeita de gerir aplicações abastecidas com dinheiro do PCC.
À reportagem, o Banco Master afirmou que não participa de projetos vinculados a créditos de carbono. A Reag não se pronunciou.
Contratos e laudos analisados pelo jornal mostram um vínculo direto entre a família Vorcaro e a Alliance Participações, empresa controlada por Henrique Moura Vorcaro, presidente da companhia, e por Natália Bueno Vorcaro Zettel, diretora e irmã de Daniel Vorcaro. Créditos de carbono, em tese, são certificados usados por empresas para compensar emissões de gases de efeito estufa, mas, neste caso, teriam sido transformados em ativos inflados sem comprovação concreta.
Dois fundos sob gestão da Reag, aponta a apuração, tiveram o patrimônio reavaliado após duas empresas participadas registrarem uma valorização conjunta superior a R$ 45,5 bilhões – o salto ocorreu com base na suposta geração de créditos de carbono em uma área pública da União, prática considerada irregular.
Em agosto de 2022, a Alliance assinou um Contrato de Opção de Compra e Venda com o fazendeiro Marco Antônio de Melo, apontado como dono da área, e com José Antônio Ramos Bittencourt, que atuou como intermediário. Pelo acordo, a Alliance ficaria com 80% das unidades de carbono vinculadas à Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí (AM), enquanto que Bittencourt teria 20%.
Na sequência, o projeto foi incorporado à engrenagem financeira dos fundos da Reag. Em 2023, uma estimativa de 168,872 milhões de unidades de estoque de carbono foi transformada em cotas de fundos, mesmo sem certificação tradicional ou referência clara de preço no mercado.
Como pagamento pela intermediação, Bittencourt recebeu cotas de dois fundos da Reag, ficando com 2,5% do New Jade 2 e 7,5% do Biguaçu. O arranjo também previa a quitação por meio de tokens de carbono, descritos como registros digitais que tentariam transformar promessas ambientais em ativos financeiros.
O contrato ainda previa remuneração ao fazendeiro por meio de cotas e tokens, mas sem detalhar percentuais ou critérios objetivos. Esse carbono atribuído à Alliance foi parar em empresas como Global Carbon e Golden Green, que inflaram o patrimônio de fundos usados, segundo a apuração, para desviar recursos e retroalimentar a estrutura financeira do Banco Master.
A valorização dessas empresas chama atenção pela falta de lastro concreto. Enquanto créditos de carbono tradicionais exigem certificação reconhecida e redução comprovada de emissões, as chamadas unidades de estoque eram apenas estimativas técnicas, sem mercado transparente ou preço público.
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Mesmo assim, a Golden Green passou a valer R$ 14,5 bilhões e a Global Carbon, R$ 31 bilhões, sem vender um único crédito. Esses valores não representavam dinheiro disponível, mas inflavam balanços e permitiam ampliar empréstimos e a venda de CDBs no mercado.
A área usada como base para o projeto é alvo de disputas fundiárias e registros que indicam se tratar de terra da União, destinada à reforma agrária e impedida de negociação privada. Ainda assim, auditorias teriam validado os ativos com base apenas em informações fornecidas pelas próprias empresas, sem checagem efetiva da viabilidade dos créditos.
Em nota, Henrique Moura Vorcaro e Natália Bueno Vorcaro Zettel afirmaram que não participaram de operações ilícitas e que atuam de boa-fé, seguindo normas de governança. “O grupo empresarial, cujas atividades detêm boa reputação há mais de 40 anos, está à disposição para esclarecer o que for necessário às autoridades”, disseram ao serem procurados pelo jornal.
A comunicação de Daniel Vorcaro declarou que “o Banco Master e seu controlador não participam da gestão, da administração, da precificação ou da modelagem técnica dos fundos mencionados”. A defesa afirmou ainda que “as atividades, estimativas e valores declarados nos balanços dessas empresas são de responsabilidade exclusiva das respectivas gestoras e dirigentes”.
José Bittencourt disse que o projeto de ativos de carbono foi interrompido ainda na fase pré-inicial após consultoria apontar problemas fundiários na área. Ele mencionou a existência de um Termo de Ajustamento de Conduta em andamento no Incra e afirmou que “nunca teve nenhum contato com Daniel Vorcaro”.
A Reag informou que não comentará o caso. O fazendeiro Marco Antônio de Melo não respondeu aos pedidos de esclarecimento.








