
Na semana passada, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou uma nova medida para aumentar o controle sobre derivativos agora, negociações feitas no exterior precisam ser registradas no país. A decisão tenta aumentar a transparência em um mercado que voltou a crescer com todo o vapor nos últimos meses. Na BM&FBovespa, o volume de negócios com esse instrumento alcançou em dezembro o maior valor da história, com mais de 25 milhões de contratos abertos. O recorde marca uma reação desse tipo de transação financeira, que ficou com a imagem arranhada durante a crise econômica e atingiu o fundo do poço em janeiro do ano passado, quando foram abertos 12,7 milhões de contratos. Além dos contratos na Bovespa, há quase R$ 350 bilhões em derivativos registrados na Cetip, entidade que organiza o mercado de balcão.
Esses milhões de negócios envolvendo derivativos já estão integrados ao dia a dia de qualquer brasileiro, apesar da aura de segredo de gênios matemáticos. E a tendência é que, com o amadurecimento do mercado financeiro, eles sejam cada vez mais usados o que pode parecer um sinal de perigo para quem viu as notícias de que a crise econômica estava ligada ao uso de derivativos exóticos nos Estados Unidos e que empresas gigantes como Sadia e Aracruz perderam bilhões de reais com contratos cambiais. Por isso, não é de se estranhar a maior regulação do mercado, que em janeiro começou a se adaptar a outra novidade: o registro de empréstimos que embutem derivativos cambiais.
"O derivativo pode ser usado como remédio ou veneno. Traz benefícios para o funcionamento dos mercados, mas precisa ser bem usado", resume Rafael Paschoarelli, professor do Laboratório de Finanças da Fundação Instituto de Administração (FIA). O lado medicinal é usado como proteção para as oscilações de preços. O risco de virar veneno está na criação de derivativos sem supervisão e que podem esconder os riscos assumidos no mercado daí as novas regras de registro.
Conceito
A dificuldade em entender o que é um derivativo vem do fato de que ele é uma abstração para negociar coisas que ainda não existem. "O exemplo clássico é um produtor de soja que precisa decidir hoje se vai plantar, mas não sabe qual vai ser a cotação do produto na colheita. Ele pode ir ao mercado hoje e perguntar quanto estão pagando pela soja que será entregue no mês da colheita e assinar um contrato de venda futura", explica o economista José Pio Martins, professor da Universidade Positivo.
O mercado agropecuário é o maior usuário de derivativos, justamente porque as variações de preços são imprevisíveis e, muitas vezes, bruscas. "A proteção, também chamada de hedge, é o principal objetivo de quem procura um derivativo", conta Carlos Alexandre Gallas, operador de commodities da Intertrading, uma corretora especializada em produtos agrícolas de Curitiba. Os contratos sempre juntam duas partes com interesses diferentes. "Você pode ter um produtor de soja que quer garantir um preço de venda no futuro de um lado, e uma fábrica de óleo que teme uma disparada da cotação e decide antecipar a compra", conta.
Unindo pontas
A bolsa facilita bastante a união dessas pontas. Primeiro, ela oferece contratos padronizados e com garantias. Também permite a entrada de especuladores, que dão liquidez ao mercado ao fazer seus investimentos. "Outra característica importante é que os derivativos permitem negócios com uma exposição menor de ativos", ressalta o economista André Paes, professor da FAE Centro Universitário e diretor da Infinity Asset Management. Se a fábrica de óleo quiser garantir o preço da soja para daqui seis meses, ela não precisa dar um cheque hoje a transação é feita apenas com uma fração do valor do contrato.
Existem quatro tipos principais de derivativos. Os mais usados são o contrato a termo e o futuro. Eles são muito parecidos, com a estipulação de um preço futuro de determinado ativo (um produto como a soja, ações, dólar e assim por diante). A diferença é que o termo é uma negociação fechada, geralmente com a entrega física do produto. Os futuros têm cotação e ajuste diário em bolsa e em muitos casos não há entrega do produto, só da diferença entre o valor de mercado e o estipulado no contrato. O mercado também trabalha com contratos de opções, em que é pago um prêmio pelo direito de vender ou comprar o alvo do negócio por determinado preço o que só é executado se for vantajoso. O quarto tipo é chamado de swap e é basicamente uma troca. Uma empresa pode pagar juros para um investidor, em troca de uma correção pela variação do dólar, o que a protege das oscilações cambiais.



