
Nos últimos dez anos, a internet virou o cenário musical de cabeça para baixo. Essa história já foi contada em verso e prosa: a indústria fonográfica se esfarelou, artistas pararam de contar com vendas de discos como modo de ganhar dinheiro e passamos a consumir grandes quantidades de música em qualquer lugar e sem pagar nada por isso.
Um subproduto desse cataclismo que se abateu sobre um dos principais setores da indústria do entretenimento foi a perda de poder da crítica musical tradicional. Se antes, jornalistas e revistas especializadas estavam sempre na vanguarda das novidades e podiam influenciar o sucesso de um artista, com a web eles passaram a competir com uma série de novos canais, como vazamentos antecipados de discos, blogs de MP3, sites independentes, comunidades, fóruns de discussão e todo tipo de mídia social.
E o mais importante desses novos sites é o norte-americano Pitchfork. Fundado em Minneapolis, em 1995, por Ryan Schreiber, então um estudante do ensino médio, o site cresceu e prosperou. A tal ponto que durante a década passada, se tornou a referência número um em jornalismo musical da internet se você gosta de rock independente e música de caráter mais alternativo.
Ágil, ligado e ousado, o Pitchfork ofuscou concorrentes de outras gerações como "NME", "Spin" e "Rolling Stone" (em suas versões on-line). Numa era de congestionamento de fontes, o Pitchfork conseguiu se impor como um filtro com credibilidade.
"Na internet, todo mundo tem espaço para falar", disse à reportagem o presidente do Pitchfork, Chris Kaskie. "Eu posso ter um blog, você pode ter um blog, o problema é apenas que há tantos lugares que fica difícil saber onde ir, como ir, em quem confiar. No Pitchfork, essa confiança que nossos leitores têm na gente cresceu de maneira orgânica, eles querem saber o que falamos sobre as coisas. Eles não precisam necessariamente concordar com nossa opinião, mas o que dissemos virou parte da sua experiência musical."
Audiência
Em setembro, Kaskie conta que um novo patamar de audiência foi atingido: 4 milhões de visitantes únicos. Segundo o executivo, fruto de um conteúdo que preza sempre pela qualidade.
"Ignoramos estratégias para turbinar a audiência que não sejam criar bom conteúdo. Queremos criar uma boa galeria de fotos, mas de uma maneira que não seja invasiva. O que se costuma fazer por aí é que você clica na página e há uma nova impressão de publicidade (medida de contagem de audiência). Não é assim que operamos porque isso é muito irritante. Também não ficamos pensando Como vamos fazer para ter leitores mais jovens ou mais velhos? O que queremos mesmo são fãs de música de todas as idades. Pode soar idealista, mas nossos números mostram que estamos acertando."
Kaskie afirma não se importar em ser cool, apenas relevante. Mas a música ainda é relevante hoje em dia, numa época em que parece que ela sai de todos lugares, sem nem ter de precisar pagar para ouvi-la? "Acho que a música continua sendo relevante como sempre foi", explica.
"A diferença é que as pessoas a priorizam de modo diferente", continua o executivo. "Ela está a caminho de se tornar outra vez algo que tem menos a ver com água da torneira. Isso obviamente não se aplica ao Top 40, à esfera mais pop. Mas em festivais e shows, as pessoas estão se envolvendo com música em grande escala agora, mais do que nunca. Considerando a quantidade de música que tem por aí, mais e mais pessoas querem descobrir mais música, conhecer coisas novas e ser o primeiro entre seus amigos a saber."



